terça-feira, 18 de agosto de 2009

A dança dos braços do pescador



Aquela tarde foi assim: De Sonhos!
Um barco que passava lentamente com a coreografia dos remos, conversas e sorrisos dentro d´água, e ela cabocla, enrolava o nosso sonho.
Naquele momento, viu o poeta que a vida é uma eterna coreografia, onde os movimentos se repetem nas coisas mais simples, como um simples ato de remar.
E sonha o poeta com os traços da cabocla...
E dança o poeta na coreografia daquelas mãos,
...e canta o poeta a nova canção!

Na condução, bailados remansos
No curso sereno ao cair da tarde
Cortando as águas sem muito alarde
Passeios, sorrisos em banhos descansos
Cardumes de peixes, felizes e mansos
Rompendo remansos, curtindo a marola
Num traço perfeito formando uma bola
Na calma subida da vida pacata
Num baile banhado dançando a fragata
Na simples canoa que inspira a viola

Remando e pedindo mais uma Licença
Os remos mergulham para navegar
E em cada braçada um novo colar
Formava-se em volta numa reticência
As poucas marolas banhavam de crença
Outro pescador que nas margens chegava
A canoa seguia e o outro sonho deixava
Nas águas correntes formando meus sonhos
A noite chegava de olhos risonhos
E o dia se pondo em descanso deitava

A linda cabocla na areia enrolava
Os sonhos secretos doutros pescadores
Também lhe apertava no peito outras dores
Das velhas saudades que o tempo deixava
Mais um pescador noutro sonho passava
Na dança dos braços bailando nos remos
Mostrando a beleza, no simples que temos
No rio, a canoa, a cabocla a saudade
E no peito o poeta é só felicidade
Soltando em seus versos, sorrisos supremos!

Primeira estrofe: Maviael Melo e Walter Lajes
Segunda e terceira: Maviael Melo

domingo, 16 de agosto de 2009

Mago






Um homem de muitos dons
Um exemplo de amor
Amigo mago, Meu Santo
Cabelos compridos
Braço acolhedor
Uma colméia, seu lar
Que criou que criar que criará

Kikiô, Java, Raoní
Espantalho não,
Passarinho sim
No broto do mamão

Quando nasce uma canção
Ela não mais é sua
É para espalhar-se ao vento
Ou ao clarão da lua
É do universo
Versos encantados, seu som
Pérolas palavras belas
Benfazejo tom
Que esperam meninos indo, lindos
Pra ver, que é bom

Kikiô, Java, Raoní
Espantalho não,
Passarinho sim
No broto do mamão.

Kaká Bahia / João Sereno

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Quero - Quero





Quem não tomou banho de bacia
não é sabedor
que a água bem quente logo esfria
não vá-se embora não
você vive igual as andorinhas
se mudando, se mudando
vê lá se não quer pousar na minha
para parar de fugir, parar de fugir
para que fugir tanto...
Você me domina desde o dia
que o bumba passou
com graça pegou tudo o que tinha
e deu para o boi lamber
vestida de flores, pedraria
visual umbanda
esfregou nas fuças da vizinha
todo esse seu jeito de ser
passei na novena da igrejinha
pedi pro meu amor
depois carne sêca com farinha
na casa de zé nestor
um dedo de prosa
e Zé me pôs a par que júlia nasceu
coitada da mãe é tão novinha
e dizem que o pai ali sou eu
que graça sem graça, credo!
Tem graça, disfarça e sai prá lá
entrei pela porta da folia
e vi um corredor
que leva `a torre da alegria
onde vive seu amor
de lá com asas de andorinha
sai voando, sai voando
vê lá se não quer pousar na minha
para parar de fugir, parar de fugir
para que fugir tanto...
Vejo o quero-quero cantarolar
ali por nós dois
e toda janela se abrirá
pensando em você
e a saudade pinta o céu de encarnado
com a água da lavagem do vermelho
e o dia desperta mal-encarado
em ver toda ajuda desperdiçada
não vá-se embora não
que fique em nome da lei
prá sempre onde eu te alcance
se você sai voando
que graça sem graça, credo!
Tem graça, disfarça e sai prá lá

Djavan

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Zé Coração



Nunca foi no raio-x
que se vê quando se ama
mas pode sim, ser na cama
no olhar que diz amor
no quente daquela palavra
que a boca assim expele
tatuado na saudade
da lembrança que traz dor

Assim é visto o amor
quando realmente existe
na chama que ainda insiste
em querer não apagar,
na água que tem no mar
desse fogo virar medo
e inundar de solidão
todo barco à navegar

Na mão que longe tenta
tocar o que não se pode
na estátua que se sacode
só pra receber um olhar,
no pulmão que a tudo implora
um pouquito mais de ar
pra satisfazer assim
o rei dessa confusão
um tal de Zé coração
que só quer saber de amar.

Fidel

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Charango

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Coração de prateleira ( ou amor com código de barras)



Encontrei seu coração
na prateleira do mercado
ao lado dos enlatados
na seção de frios e congelados...
não comprei seu coração
ele estava estragado
prazo de validade vencido...
ele estava derretido
na seção de laticínios
cheirando a gorgonzola
e murchava feito bola
já na ala de brinquedos
não brinquei com ele, juro!
tive medo, tive medo...

eu achei seu coração
estava por todo lado
fosse junto ao biotônico
ou no meio dos eletrônicos
com garantia perdida
e na estante das bebidas
ao lado de um vinho francês
mas eu não pude comprar
tava caro, fim de mês...

ele estava em toda parte
sempre com um novo disfarce
de couve-flor ou alface
com sua beleza orgânica,
sua frieza transgênica...
e já era pura química
encostado à soda cáustica
mas minha angústia alérgica
me fez mudar de seção...

então vi seu coração
dentro da sacola plástica
indo em direção ao caixa
embalado noutra caixa
já saindo do mercado
num carrinho abarrotado
e tive a mesma sensação
que há muito havia tido,
ao vê-lo ali espremido
entre o frango e a carne fria,
que, como mera mercadoria,
seu coração sempre acaba vendido...

Zecalu Guimarães

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Distância



A distância nos comove
como move o coração,
como a lágrima que corre
cada face a chorar

A distância traz o mar
da saudade de um irmão
e o tempo leva a dor
do amor sem cheiro, sem cor
de um querer que não quer nada
de pisar sem ter um chão

Fidel

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Recife (Noturno)




Só gosto de ti à noite,
quantos os abstêmios dormem
e os boêmios saem às ruas
em busca do nada.

Só gosto de ti à noite,
quando batem lembranças
de amor e de sonhos perdidos
no tempo.

Só gosto de ti à noite,
quando me debruço sobre
o Capibaribe e, assim, consigo
ver a minha alma e a chorar
a dor do mundo.

Só gosto de ti à noite,
quando pertences por inteiro
aos boêmios, vagabundos
e poetas.

Robson Sampaio