terça-feira, 30 de junho de 2009

Para todo o sempre



De corpo inteiro agora me entrego,
Feito um furacão que devasta, e tudo varre
Entre agora!
É uma ordem, mulher!
Que faça tremer minhas carnes,
Sacudir os meus nervos
Lubrificar os meus olhos
Delirar no meu eu.

Entre!
A porta da frente
Desse novo coração esta aberta,
As janelas do meu peito
Estão todas escancaradas
À espera desse vigor infindo,
Desse tesão que gruda
E cola nossos corpos
Nos fazendo uma só matéria,
Um só espirito.

Entre!
Enquanto o suor que passeia
Pelos corredores desta pele
Regando nossos poros com sal,
Tempera o infinito do querer.

Entre!
E fique a vontade no meu eu que é seu,
Permaneça em nós,
É uma ordem!
E que assim seja
Todos os dias
Para todo o sempre,
Amém!

Paulinho Jequié / Fidel

Seqüestro Pessoal



Sou refém de mim
Olho-me, e não posso ver
Coisas que gostaria.
Sou encapuzado sem visão,
Forjado no traço que traça
O compasso do meu coração.

Me peço resgate,
Minh’alma rejeita
Me peço respeito,
Meu corpo deleita

Quando já não me peço
Meu ser me aceita
E faz do seqüestro
Um belo encontro

Desandado no tempo,
Quero passar sem convite
A velha catraca da vida a girar
E mesmo barrado me torno voltar
Pra grande giranda do recomeçar.

Sou assim, sem destino sou!
Jogado ao léu,
Um véu de calor,
Cobertura do olhar
No corpo da vizinha
Que passa com pressa
Pra não me notar.

“Quem sou você”, na incerteza do certo?

Pois é, sou esse aí,
Agora, pergunto-me sem medo:
É comum se auto-seqüestrar
E viver pensando livre?

Paulinho Jequié / Fidel

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Luiz Carlos Bahia - "Sonho de Sonhador"

Filhos de Deus, Amém!



Sou o mar soltando a rima
Em cada onda quebrada
Pela proa da jangada
Ora embaixo, ora em cima
O meu ciclo não termina
É corrente quente e fria
Conheço a barra do dia
E a linha do horizonte
Sou base pra qualquer monte
O meu nível rege a guia

Navego pela poesia
Num Galope a Beira Mar
Sou o verso pra rimar
O ciclo que se inicia
Meu canto não silencia
E sonoriza o balanço
Eu nunca paro e nem canso
Vou invadindo fronteiras
Fincando frases bandeiras
Em cada ponto que avanço

Sou valente sendo manso
Bravio, calmo e sereno
Pra ser grande, sou pequeno
Querendo colo e descanso
Sou a passada do ganso
Na mansidão nova Lua
Recebo versos das ruas
Por onde o vento trafega
E entre espumas me entrega
Saudades das noites suas

Em meus sonhos perpetua
Outro canto de saudade
Vou construindo a idade
Eu sou o tempo que atua
Formando outra pele nua
Com a semente do bem
E cada verso que vem
Traz outra rima de Paz
Somos isso, e muito mais
Filhos de Deus, Amém!

Maviael Melo

domingo, 28 de junho de 2009

Raimundo Sodré em Hamburgo

Nosso Poema



Me embriaguei
Com um coquetel de sentimento
Embaracei em minhas asas
Posei em ti.
Caímos no laço do acontecimento
A mágica da vida
Transformou o laço
Em nosso elo
E feito um bambolê
Circula entre nós.
A energia que liberamos
É a mesma que nos prende
Nas grades do viver,
No centro do elo
Vejo a distância
Olho a olho
Com uma asa no ontem
A outra no hoje.
Sigo voando
Para o além horizonte
Levando uma flor
Para as terras de lindos jardins
Onde as pétalas não caem
E eternos são os colibris.

André Marques (andrézinho)

Instante Eterno



Eu tenho dois olhos na cara
para melhor te olhar
uma boca cheia de dentes
pra ti morder e beijar
com os meus ouvidos
ouço promessas de amor
teu cheiro me invade
fragância de suave olor,
te chamo em meus braços
me embaraço em teu ser
misturo o suor
deixo no corpo correr
num instante eterno
de puro prazer.

Luiz Carlos Bahia

Deixa a gira girar



Meu pai veio da Aruanda e a nossa mãe é Iansã.
Meu pai veio da Aruanda e a nossa mãe é Iansã.

Ô, gira, deixa a gira girar.
Ô, gira, deixa a gira girar.
Ô, gira, deixa a gira girar.
Ô, gira, deixa a gira girar.

Deixa a gira girar...
Saravá, Iansã!
É Xangô e Iemanjá, iê.
Deixa a gira girar...

Iê...durururururu, lá, lálailá, lálaiálá.

Meu pai veio da Aruanda e a nossa mãe é Iansã.
Meu pai veio da Aruanda e a nossa mãe é Iansã.

Ô, gira, deixa a gira girar.
Ô, gira, deixa a gira girar.
Ô, gira, deixa a gira girar.
Ô, gira, deixa a gira girar.
Ô, gira, deixa a gira girar.
Ô, gira, deixa a gira girar.
Ô, gira, deixa a gira girar.
Ô, gira, deixa a gira girar.

Os Tincoãs

quarta-feira, 24 de junho de 2009

João Sereno - Desenho

Estação do Tempo



A festa tava bonita
Meu verso passou correndo
Levando a rima e querendo
Soltar teu laço de fita
Pra vê se tu acreditas
Em cada rima do verso
A festa foi um sucesso
Quando em teus olhos fitei
Nova saudade eu cantei
Na estação da “Progresso”

E essa saudade canção
Foi viajando comigo
Querendo em teu colo, abrigo
Sentindo á face tua
Sonhei naquele salão
Com o teu bailar tão faceiro
Cheguei acordando inteiro
Carregado de saudade
Trazendo a sonoridade
Desse cantar estradeiro

Espere-me que estou chegando
Cantando o meu canto novo
Pode espalhar pra o povo
Que o verso está se formando
Estou na viola levando
Notícias alvissareiras
Que pelas noites brejeiras
Em motes nos foram dadas
De amores tantas jornadas
Mensagens, vidas inteiras!

E chegarei com saudade
De começar outro verso
E ao mestre sempre que peço
É conforme a sua vontade
Trouxe um pouquinho da verdade
Que pelo tempo encontrei
E a canção que cantei
Soltando versos ao vento
É pra encantar o momento
Do beijo que não lhe dei.

Maviael Melo

terça-feira, 23 de junho de 2009

Mosaico



Só faltava uma caneta
uma forma de uma letra
uma rabeca, uma zabumba
e a música sair perfeita

Se eu falasse que era mudo
e vestido ser desnudo
faria religião virar ceita
ouvindo o som que se deleita
com a oração que foi desdita
pela fé do homem matuto

Já não me falta mais nada
nem o caminho de uma estrada
ou um parado de uma rede
o movimento de uma parede
ou mosaico da igualdade

Sinta o chão no meu pé
a areia no canto da unha
no cenário de Euclides da Cunha
esperança é a comida que se quer

E assim, vá caneta! Solta sua tinta nesse papel branco
não perca a linha e conduza sua escrita
que vou inteiro deslizando no teu ponto
vou solto andando com letras tortas
e em linhas certas chego a descobrir que:

"Os anjos cansados de tanto cabresto
sentam na mesa, pedem cerveja
e nos oferecem esses versos
e aqueles outros poemas."

Fidel / Max Ribeiro / Gildemar Sena / Adriano Botura
[Alto do Conselheiro - Toque de Zabumba]
22 de junho de 2009

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Ademar



Fechou os olhos pra olhar eternamente pra dentro do futuro de todos.
Fez história, contou histórias, foi imã de pessoas, é mito.
Tocou, chorou, brincou, encantou a todos pela força da alma.
Uma nesga da sua presença era suficiente empolgação para respirar mais e mais arte.
Foi, mas fez questão de deixar o presente de cada um que o conheceu: a lembrança!

E se tratando desse presente, deixo aqui impresso, duas linhas da última história que "Demar" contando, chorou e me fez chorar de rir também, na presença do seu fiel escudeiro de todas as manhãs: "Carioca".

[N'uma manhã de Domingo]

- Sobre o Romualdo -

"... O dono da venda pediu que quando Romualdo voltasse, trouxesse um filhote de "Cauã"...
Passaram-se 6 mêses, até que Romualdo voltou com um filhote de anum,
e então ao abrir a caixa com o suposto pássaro dentro, o dono da venda disse: "Cauãããã" hein, Romualdo "Cauããããã"..."

------------------------------------------
Ademar, Uauá sempre fará questão de ser moldura no quadro da sua história.

quinta-feira, 18 de junho de 2009

O sertão ficou vazio

O sertão ficou vazio
Com o voo de um passarinho
Que parte deixando o ninho
Numa tristeza sem fio
O céu alegre sorriu
Pra receber Ademar
São Pedro mandou botar
Uma faixa de poesia
Jesus, José e Maria
Na porta a esperar.

Maviael Melo

Ademar com 84 anos, Uauá!

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Amigos



Amigos são parceiros...
que estão sempre a nossa disposição.
Amigos são mãos...
que as vezes nos falta para levantar.
Amigos são lenços...
que nos ajudam a enxugar as lágrimas.
Amigos são ouvidos...
que nos escuta com atenção.
Amigos são pés...
que nos levam a lugares especiais.
Amigos são braços...
que nos dão forças para seguir.
Amigos são bancos de praça...
Quando queremos sentar e descançar.
Amigos são terraço...
Para termos uma visão melhor do mundo.
Amigos são Diário...
Onde guardamos nossos segredos.
Amigos são amigos...
Que por qualquer motivo,
a gente pode sempre chamar...
de Amigo.

Mário Pires

terça-feira, 16 de junho de 2009

Muito Além do Jardim



Nosso amor morreu tão cedo
Durou o tempo exato da agonia, do tancredo!
Foi pro espaço muito além do jardim
Desafinou, quebrou o instrumento

Nosso amor não teve medo
Foi fulminante como um raio em noite, violento!
Em tão pouco tempo e tão feliz quanto um "sim"
Um desafio a mais ao sofrimento

Foi um tempo de um brilho intenso, embriagador
Justo quando eu me acliamatava o ar faltou!
No instante em que acelerava, o sinal fechou!
Peixe que fora d'agua, me escapou!

No momento em que me sentava, o filme acabou!
Foi como um edifício novo que desabou. . .desabou, desabou, desabou!
Foi como o incontrolável fogo que se apagou
Foi novamente o tapa brutal da dor.

Sérgio Sampaio

Voz da Terra



Acordem, filhos da sede!
Levantem da cama ou da rede!
O rio da existência
Sua resistência
Está por um triz
Há muito que recuperar!
É preciso salvar
O que já foi feliz

Parem com tanta ganância,
Deixem de me atormentar!
Estão me deixando nua,
Sem a água doce,
Sem o puro ar...

Será que a razão não diz
“Pr’onde” a humanidade vai?...
Sem verde a chuva não vem
E finalmente, sem
Chuva o verde se esvai.

Mesmo esgotando o petróleo,
A vida não vai parar.
Mas quando o verde sumir
E a fonte doce secar,
Quem irá de sobreviver
Só tendo pra beber
O sal sujo no mar?...

Querido Brasil,
Oásis sem fim,
Orgulho de tantos,
Pedaço de mim,
Vem ouvir um canto novo
Alerta teu povo
Com versos assim:

Acordem, filhos da sede!
Levantem da cama ou da rede!
O rio da existência
Sua resistência
Está por um triz
Há muito que recuperar!
É preciso salvar
O que já foi feliz

“O Velho Chico”
Filho da Canastra,
Triste se arrasta,
Quase sem poder,
Desesperado,
Numa prece muda,
Pedindo ajuda
Para não morrer.

O Amazonas
No pulmão do mundo,
Largo e profundo,
Corta a mata bela,
Vendo o tamanho
Do desmatamento
E o sofrimento
Dos que gostam dela.

Ah! se o doce dos meus rios,
Num recomeço de Paz,
Pudesse voltar atrás
Antes de cair no sal...
E nesse retorno santo,
Cobrisse os chãos descobertos,
Ressuscitando os desertos
Do “Nordeste Mundial”.

Querido Brasil,
Oásis sem fim,
Orgulho de tantos,
Pedaço de mim,
Vem ouvir um canto novo
Alerta teu povo
Com versos assim!

Paulo Matricó

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Suicídio



A lâmina do escárnio corta-me os pulsos
o meu lado idílico jogou-se de um penhasco qualquer
sangra-me a fronte
secam-se as lágrimas
vem com tua volúpia
que partirei com meu orgulho
vem flutuar no mar de afogados
aflitos por teus cabelos
atiro-me como tolo à fogueira do desejo
a fogueira das bruxas
queimam corações indóceis
e sobram cinzas de dias incertos
inebriantes noites ao teu lado
e o que me restou?
A dor!

Heron Jordan

Madalena da dor



Quis ser livre,
E tudo quebrou
Virou mulher
Com minha carne
Em suas unhas

Saltou alto feito felina,
Esqueceu a menina,
Quando deixou de ser santa

Crescente como a lua
Nua e crua
Foi enredo de livros
Fez desmoronar lares
Foi conversa de bares

Filhos não criou
História de muitos
Clip da moda
Madalena da dor

Letra: Kaká Bahia
Música: João Sereno
Intérprete: Ton Ton Flores


Paulinho Jequié - Pra cantar ao luar!

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Sivuca e Hermeto - Solos

No computador não



O computador não mostra
meu sentimento pra você,
muito menos de palavras digitadas
o que mostra é minha voz no seu ouvido
quando chega ao coração
e por veias até o pulmão
alimenta com ar de esperança
toda minha perseverança
em querer sem palavras te tocar

E assim por fim,
a palavra dita a segundos atrás,
ao pé do seu ouvido
chega a pele, que tremendo
arrepia todo o pelo
e começa com calma
todo o enlace
que pode acontecer em qualquer lugar
menos no computador,
no computador não.

Fidel

Entrelaçada



Olha só como é a vida,
entrelaçada por bits,
emaranhada por pulsos,
marcada por tons,
entonada por sons,
e eu aqui sozinho,
pensando amanhã, do seu lado,
dia de namorados,
mas longe e tão perto da tecnologia
que torna mais amável o dia da vida
de quem ama e não curte de perto,
amarga o longe, espera que um monge
encurte a vida e a lida daquele que ama,
e espera na cama você chegar.

Roberto Pacheco

terça-feira, 9 de junho de 2009

Conto Tabareu: " ROLDÃO E TEREZINHA " Luiz Carlos Bahia

Devês



Quando meu amor passou nas porteiras desse mar azul.
Tinha as percatas toda seca e eu pisando nesse lago espelhado.

E cravejando o peito nesse espinho dessa rosa do sertão.
Era todo lago era de vez, maduro era só o nosso amor.
Nesse chão rachado, era devês, maduro era só o nosso amor.

Aboio.

E cravejando o peito nesse espinho dessa rosa do sertão.
Era todo lago era de vez, maduro era só o nosso amor.
Nesse chão rachado, era devês, maduro era só o nosso amor.

Corisco / Val Macambira

Linha do Coração



... Pra estreitar os laços e dar um nó
nas linhas das nossas mãos
e com elas assim, cercar o coração
que sempre foge... Pra não achar
um outro músculo que bata em compasso
fortificando o laço que amarra minh'alma
e que de agora em diante terá tua palma
pra acariciar [ o resto do meu peito quiçá!

do meu corpo, até que eu esteja todo enlinhado

em você, e não achar nunca mais

o caminho de volta para solidão. ]

Fidel

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Metamorfose



Quem me procura na aparência antiga de lagarta?
Não me encontrará. Pois foi a metamorfose,
que deu-me asinhas coloridas.
Há pouco era um louco,
que varria das vistas
o verde das folhas.
Tanta clorofila,
Tanta fila,
Fiquei
Cheio.

Agouro?
Agora não mais.
Apenas transformação,
Crescimento retilíneo das asas,
Desenvolvimento da imaginação.
Estou vívido nos campos da vida que aflora,
Afora das tendas do preconceito, eis que tinha no peito.
Tenho ido e vindo no meio da flora, nos bons sentimentos d’agora.
Quem me deu bons fluídos, a natureza, a florzinha, ou a poesia desta hora?

Robsson Rodrigues

Quem és tu?



Quem és tu, que vem de longe trazida no rosto de um desconhecido?
Quem és tu que é tirana e é alivio,
Que me repele e me acalanta?

Quem és tu, que é donzela pelegrina de noites turvas?
Que já me acorrentou e me fez homem livre num só dia?
Quem és tu, dama desnuda de momentos vis?

Quem és tu, que me desdenha e me alegra nas madrugadas sem fim?
Quem és tu? Já que nem sei quem sou eu.

Mas devo partir o sol já vem nos engolir...

Heron Jordan

domingo, 7 de junho de 2009

Menina de Olinda



Vida de verão inverno
Vou fazer meu terno pra brincar
De ciranda, de ciranda
Pra quando o carnaval chegar

Eu sou maracatú de Olinda
Que coisa linda que você me fez
Jogar confete e serpentina lá em Olinda
Mais de uma vez

Vem Menina, quero dançar com você
Vem dançar no galo e vem ver
As sombrinhas no chão e no ar

Vem pra cá, se vestir de amarelo e vermelho
Venha que eu sou seu espelho
Espelho que vai clarear

Zecrinha / Fidel

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Triste torpe



Este terrível-massacre-triste
que há muito persiste-e-resiste
em existir-constante não é nada
além de uma supra-infinita

Dança solitária-por-demais
onde pretensões-de-gente
largam-se inconscientes em
lugares-muito-errados culminando

Em fim-de-esperanças
desmoronando corpos-burros
sobre falsos-tronos-sujos-demasiado

Estes intentos-fantasiosos-e-burros
cercam mentes-sempre-chulas em
labirintos de desamor & celibato-sempre

John Williams

Charada



Desprende da bola
Vontade sublime
Corrida esquecida
Em vida se sabe
Depois de vencida
É uma comida
Que vem com vontade

Ontem misturado
Que agora tá vivo
Amanhã enterrado
Junta ao dividido
No couro da bola
Penetra macio
Charada do mundo
Segredo vazio.

Fidel

Paco de Lucia

Poema Nacional



Poderia dizer
que o poema tem pressa
e acalenta em mim
essa inquietude,
fervendo minhas tripas.

Poderia dizer
que o poema tem fome,
espetada nos olhos da balconista.

Mas o poema é pouco,
para alcançar os homens
adormecidos em seus sonhos de medo;
o poema é pouco,
contra os militares e suas armas mortais,
contra a igreja e seu deus profano,
contra os sórdidos capitalistas
e latifundiários desse meu país.
O poema é muito pouco,
mastigando essa esperança brasileira.

Jorge Lopes

Silvana Menezes



O poeta enxerga tanto
ao ponto de depositar
nas palavras
as balas
que de outra maneira
jogariam seus miolos
a dez metros de distância

Silvana Menezes

terça-feira, 2 de junho de 2009

Terra



No azul que lhe envolve
E se renova a todo instante
Gira a gira do tempo
Verde e amarelo pulsante
O céu é a janela entreaberta
Nossa vista permanente
E a mistura do ser
É nova e se renova ao merecer.

Terra! Fertiliza a nova era
Nos viventes desta casa
Terra pra plantar
Terra pra colher e pra sonhar!

É direito de todos
Um pedacinho de chão
É dever preservar
Contra essa devastação
Na luta por um mundo bem melhor
Um futuro radiante
Verde e amarelo pra ser
Um sonho de um sertão mais triunfante.

Maviael Melo / Fidel

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Fin del sueño



Y llegó a soñar
trompetas y querubines
romper mi silencio
soplar a la mar azul

Y hasta entonces
era transparente,
teniendo forma y color
impreso en mi iris

Y el arco de triunfo
que fue condecorado
el talón de Aquiles
y mi amor ya no estaba. 

Victor Fidel

Chronos



Depois de voados os anos é que descobri porque meus aniversários são tão frios,por tantas vezes, úmidos.
Não fora aquela mesma descoberta feita quando encontramo-nos, eu e os livros de ciências,
quando me foram apresentadas as estações do ano.
Por tempos acreditei ser culpa do tal inverno, aquele frio que me congelava.Passei a detestar
bodas e temer invernos...
Os anos seguiram-se e alargado o meu alcance perceptivo vi que não se tratava de temperatura,
era outro o frio que acompanhava o "meu dia”;um frio tão intenso e persistente,
por vezes estrangulador, que a cada data agigantava-se, rompia limites de quaisquer termômetros...
Eis que hoje, dias antes da tão temida data que o tempo arrasta com velocidade descomunal,
contemplando o poente e testando a resistência de minha pele, chego à resposta.
Agora sei o porquê dos frios - pobre meteorologia que nada explica!
O tal frio, caro leitor, é do coração que todos os anos sente falta de uma parte importante.
E para não ser exceção neste contexto de regras mortas, parece-me ser este um dos mais
rigorosos invernos em minha vida.

Erika Jane Ribeiro
Uauá,05/07/08. Noite fria ao lado de Piculico.

Os Sons do Silêncio



Ouvir o silêncio quando você parou de respirar
E a primavera perdeu suas flores,
Senti o calor do inverno
Senti minha felicidade no inferno
Ao tocar em sua mão gelada
Como um cavaleiro que perde a amada
Hoje sou a solidão de uma estrada deserta
E como sua volta e incerta
Espero o dia de te encontrar
Não sei por que meu peito bate
Se você não pode escutar
Vivo sem querer
E morrer seria viver
Para em teus braços poder ficar

Kaká Bahia

Não tem jeito



Venha vida,
Me desafiar!
Me fazer acordar
Pra sair atrás do que comer.
Venha vida,
Venha me dizer
Que mesmo eu consiga
Dela eu não escapo,
Até mesmo minha pele
Que nasceu feito veludo
Morre como fosse trapo.

Venha vida
Dizer que tudo que me faz viver
É uma tentativa de matar a morte
E não tem jeito.

Mané Letal

Prato do Dia



Cozinhar a heresia
N’uma panela de lágrimas fervendo
Apimentada à tesões
Degustar à mesa cheia de donzelas.
Nada mais que um sonho
De um pensamento desvairado e sem fim!

Mané Letal

O Sim & Outros Achaques



A vida inteira anulada
por falta de outros desígnios,

eis que voltamos ao parque
onde os homens se congregam:

ninguém jamais sabe ao certo
onde o sim das grandes aves,

singramos por mares mansos
que julgáramos esquecidos —

mas eis que a vida se perde
por falta de outros desígnios.

Ou não se perde: é só isto.

Antônio Brasileiro

Parábola do pássaro perdido



Rios e matas
Cachoeiras e pedras
Um sinal
E um pássaro vai voar
E um pássaro vai voar
Pássaro vai voar.

Quem é o pássaro branco sereno,
Que bica o meu fruto até me sangrar
Será algum feiticeiro ou fada
Heroi, semi deus ou pirata do mar?
Quando menino de noite escutava
O seu bater de asas atrás do pomar
Deus ou demonio, cigano ou sonho
Ciranda, quermesse, canção de ninar.

Helvécio Santana / Ruy Mauriti / Zé Jorge

Como se fosse!



Ontem o hoje esteve aqui
Pra vir falar do amanhã
E quase atrás de um arranha-céu
Foquei você.
Linda e minha!
Doce dom,
Integrando aquele som
Que deu prazer.
A melodia se ouvia
Parindo uma canção
E eu, quase um nada,
Ao ouvir seu coração
Derramei-me inteiro de paixão...

Amor esqueça o hoje,
Como se fosse,
A guia para o nosso afã
Amor, o amor é santo,
E seu encanto,
É que recria o dia do amanhã.

Paulinho Jequié / João Sereno

Intante Infinito



Eu tenho dois olhos na cara
Para melhor te olhar
Uma boca cheia de dentes
Pra te morder e beijar
Com os meus ouvidos
Ouço promessas de amor
Teu cheiro me invade
Fragância de suave olor,
Te chamo em meus braços
Me embaraço em teu ser
Misturo o suor
Deixo no corpo correr
Num instante eterno
De puro prazer.

Luiz Carlos Bahia

O Ébrio



Nasci artista. Fui cantor. Ainda pequeno levaram-me para uma escola de canto. O meu nome, pouco a pouco, foi crescendo, crescendo, até chegar aos píncaros da glória. Durante a minha trajetória artística tive vários amores. Todas elas juravam-me amor eterno, mas acabavam fugindo com outros, deixando-me a saudade e a dor. Uma noite, quando eu cantava a Tosca, uma jovem da primeira fila atirou-me uma flor. Essa jovem veio a ser mais tarde a minha legítima esposa. Um dia, quando eu cantava A Força do Destino, ela fugiu com outro, deixando-me uma carta, e na carta um adeus. Não pude mais cantar. Mais tarde, lembrei-me que ela, contudo, me havia deixado um pedacinho de seu eu: a minha filha. Uma pequenina boneca de carne que eu tinha o dever de educar. Voltei novamente a cantar mas só por amor à minha filha. Eduquei-a, fez-se moça, bonita... E uma noite, quando eu cantava ainda mais uma vez A Força do Destino, Deus levou a minha filha para nunca mais voltar. Daí pra cá eu fui caindo, caindo, passando dos teatros de alta categoria para os de mais baixa. Até que acabei por levar uma vaia cantando em pleno picadeiro de um circo. Nunca mais fui nada. Nada, não! Hoje, porque bebo a fim de esquecer a minha desventura, chamam-me ébrio. Ébrio...

Tornei-me um ébrio e na bebida busco esquecer
Aquela ingrata que eu amava e que me abandonou
Apedrejado pelas ruas vivo a sofrer
Não tenho lar e nem parentes, tudo terminou
Só nas tabernas é que encontro meu abrigo
cada colega de infortúnio é um grande amigo
Que embora tenham como eu seus sofrimentos
Me aconselham e aliviam o meu tormento
Já fui feliz e recebido com nobreza até
Nadava em ouro e tinha alcova de cetim
E a cada passo um grande amigo que depunha fé
E nos parentes... confiava, sim!
E hoje ao ver-me na miséria tudo vejo então
O falso lar que amava e que a chorar deixei
Cada parente, cada amigo, era um ladrão
Me abandonaram e roubaram o que amei
Falsos amigos, eu vos peço, imploro a chorar
Quando eu morrer, à minha campa nenhuma inscrição
Deixai que os vermes pouco a pouco venham terminar
Este ébrio triste e este triste coração
Quero somente que na campa em que eu repousar
Os ébrios loucos como eu venham depositar
Os seus segredos ao meu derradeiro abrigo
E suas lágrimas de dor ao peito amigo.

Vicente Celestino