quinta-feira, 30 de abril de 2009

Aqui dentro da minha cabeça



Vá por mim, mas cuidado!
Se você vier por minha cabeça,
cuidado pra não pisar nas flores,
eu podo o jardim todos os dias
pra que ele esteja impecável
quando você passar

Continue cuidando de mim,
e quando você voltar
já arrumei a cama,
já fiz aquele café,
faço tudo que você quiser
aqui dentro da minha cabeça.

Victor Fidel

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Hoje Não!



Hoje não tem nada disso
de ser feliz por aí
hoje não quero comício, aqui!
dentro de mim não existo
sinto que fui, que parti
meus compromissos já esqueci

Hoje não tem nem perdão
nem Pai, nem Mãe, nem irmão
nada de ser guardião dos meus
hoje não tem solução
e nem problemas também
nem rico nem pobretão, ninguém!

Hoje não tem violão
não toco samba canção
não quero nem discussão
nem vem!

Sérgio Sampaio

terça-feira, 28 de abril de 2009

Será enorme o prazer



Será enorme o prazer
levar ao mundo alguns versos
e soltando-os... Aos ares
pelas ondas do universo
costurar os pensamentos
que pelos ares ciganos
formam a imensa teia
desse intelecto humano

É um prazer sempre ver
nos olhos de uma criança
a poesia morando
“inquilina” da esperança
de mim já fogem esses versos
e viajam por outros ares
até chegar ao destino
dos infinitos olhares

Levando assim a lembrança
que tecendo um outro tempo
enchem assim outros mares
e volta trazendo o seco
d´outros silêncios enfim...


Maviael Melo / Victor Fidel

Menino de Rua



Um menino, sem mimo.
Um futuro adulto sem infância.
Sou um momento no atino
Sou um ser sem importância.

Sem brinquedo,
Sem carinho, sem amor.
Desolado do mundo
Sou um ser sofredor.

Um guri sujo e fedido
Sem rumo, sem esperança.
Um suspeito desconhecido
Um homem quase criança.

Sem nome, sem lema,
Com fome, na lama.
Sou despercebido sem tema,
Pobre coitado sem grana.

Robsson Rodriguess

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Grávido



Grávido...
Porque será que um homem não pode?
querer estar estando sempre ávido
por entender em si a semente
que ele vê na barriga
daquela rapariga
que passa em estado interessante
interessante
nove luas nove meses
tantas transformações
muda a pele tudo muda
tudo vale para ter o fruto
e de repente rebento
abrir a porta a dar a luz
o choro a chama da nossa vida
reluz, atrai, seduz

Ô Mãe como seria ter um filho?
saber passo a passo da relação
à alegria do parto
cuidado pela fêmea
que a todo nós segura
engravidado por ela
na relação da paixão mais pura
Mãe como seria ter o filho?...

Gonzaguinha

Farrapo de um cantador



Vou Rasgar o verbo na lata
Cantando de cara uns versos pro senhor
Que me vê riscar um fiapo
Farrapo de um cantador,
Pois das venturas que há no mundo
Ser um vagabundo é o que me restou.

De primeiro, ainda menino,
Costumava me queixar
Das privações que o divino
De poder infindo teimou em deixar,
Resmungando pelos cantos
Jurei, inté pro Santo, que um dia ia aprumar.

Me perdi na mocidade
Vindo pra cidade quis me arranjar
Pro olhos de uma donzela,
Cegueira dos olhos dela;
Preso por laços de amores
Conheci as dores de um novo pesar.

Diz que a dor ensina a gemer,
Não creio nisto, é mentira;
Vivo cantando a sofrer
E as dores meus cantos espira
Sou filho do Sofrimento
Tormenta quem me criou
Ainda ando de mãos dadas
Por estas estradas com a tal de Amargor.

Com se ainda fosse pouco,
Estou que nem língua de sogra
Sem tempo pra descansar;
Porfiando com o patrão
Migalhas de pão pelo meu cantar.
E o sinhozim vem me dizer
Pra eu caçar serviço, mode ir trabalhar
Como se a flor da cantiga
Brotasse na caatinga sem ninguém plantar.

Se nós não bota um frei na gente,
Num sei, minha gente, onde nós vai parar.

Vou lhe arranjando estes versos, Modesto
A vida merece o melhor que nós tem,
Mas este oficio é um bocado difícil
E o negócio não vai muito bem.

Seu Ribeiro

Ipirá Pirou



Se Ipirá pirou, o bêbo levantou
A folha que rolou lá no meu jardim

Lá no meu jardim
Colhi capim santo pra fazer meu chá
Não é de brincadeira
Subir o monte alto pra me confessar

Confessar o meu amor por ti
Se Ipirá pirou
É por que você tá aqui

Água da caboronga, água caboronga gágágá...

Verlando Gomes / Nonato sky

Poeira estelar



Poeria estelar
Você não sabe, mas eu vou lhe contar
Com quem está
O grande latifúndio do espaço siderá

Uma redoma popular, dois ambientes
Um pra viver, outro pra sonhar
Quanto é que vai custar?
Quanto vai poder custar?

Se a Terra tem donos
Pro espaço e planos
Uma cabeça de porco em Saturno
O lugar adonde durmo
Um buraco na avenida central
Uma laje na perimetral
Oito pratas sanduíche
Doze pratas segurança
E a felicade estendida
Em algum lugar da lembrança.

Totonho

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Espelho do Tempo



Fiquei imaginando o tempo
Incrível o que se pode ver
Desde que era menino
Esperei o sol e o amanhecer
Longe de minhas vontades
Pude ser dono do que não ter
Ontem foi um dia a menos
E hoje amanha terá que ser
Me espelho no meu passado
Alimento do meu viver
Tudo que tenho é amado
O resultado do que finquei
Regando uma planta na terra
Invejo-me por que plantei
Os amigos de uma vida eterna.

Kaká Bahia

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Coisas que inventei de inventar



Inventei de inventar um invento
Certo que seria estrela
Não passei de ser jumento
inventei um tal de ficar
Era só agarra agarra
Era só se esfregar
O invento foi tão bom
Que danei-me a inventar
E inventei o tal do namorar
No namoro era melhor
Era mais que agarra agarra
Era mais que esfregar
O que queria podia
Só carecia lhe falar
Foi o melhor invento
Que inventei de inventar
Não me dei por satisfeito
Inventei de me casar
Acabou-se a liberdade
Junto com felicidade
Comecei a me lascar
Hoje triste e infeliz
Intriguei-me do juiz
Que ajudou me condenar
Também não falo as testemunhas
Pois se fossem meus amigos
Eles também não tavam lá
Se culpado já paguei
Mas se a culpa for do padre
Ele também vai me pagar
Dos inventos que inventei
Entre eles este é o rei
No pior do inventar.

Galdencio Neto

terça-feira, 21 de abril de 2009

A Navalha



É cortante ver a navalha
Da divisão social
Reagir à inocência coletiva
Fatiando em seletiva
A igualdade em desigual

É cortante o carnaval
Dividindo a alegria
Transformando poesia
Em um lixo cultural

É uma lâmina afiada
A divisão "proponer"
O abismo aguçado
Rotulando bem e mal

Tudo isso é isso tudo
A estampa em nossa cara
Do espelho social

Victor Fidel

Gaiola



Já fui a flor e o espinho,
O canto do passarinho,
Quem amou, quem já sofreu.
A dor e o prazer do ninho,
Engaiolado em seus braços,
Ave que você prendeu

Num dia de noite em branco,
Aos trancos e barrancos,
Procurei um novo sabor
Que a minha boca não encontrou
Pra curar essa ferida,
Do amargo dessa vida,
Queria o doce do amor

Aí, meu bobo coração
Não quis ouvir o que a razão
Queria me dizer,
Quis a gaiola da paixão
Pra que eu pudesse voar
Sempre perto de você.

Victor Fidel / Max Ribeiro

O Homem, o tempo e o espaço



O meu sangue é latino
Meu coração caatingueiro
Minha alma é mundana
Meu amor é cangaceiro
Minha vida é esperança
Minha morte é o roteiro
E a vida é uma bola
Movimenta, corre, rola
Descendo o despenhadeiro

O primeiro é o último?
O último é o primeiro?
A vida, onde começa?
De quem somos nós herdeiros?
A certeza e o engano
Dezembro é fim de ano
E o começo é Janeiro

Eu busco o início e o fim
Eu busco o fim e o começo
Quando penso parecido
Eu mesmo não me conheço
Afinal quem somos nós?
E pergunto: Quem sois vós
Entre a coragem e o medo?

Meus olhos são raios X
Um radar minha audição
Minhas emoções são fortes
Mais forte minha razão
Percebe meu sentimento
E processa num momento
A resposta, a decisão

Normalmente continua
Não é fácil a solução
Porque a todo o momento
Processa-se a mutação
O conhecimento é o degrau
Uma escada, mais um grau
Projeta a evolução

O homem vive lutando
Contra o espaço e o tempo
Passa a vida recordando
De seus melhores momentos
O tempo e o espaço
Faz da vida um compasso
Já dizia Mané Bento

Não sei por que escrevi
Essas coisas num repente
Não é coisa da cabeça
Nem da mente consciente
É a força que é estável
Penetra o impenetrável
E se torna permanente

Para encerrar a história
Pra você compreender
O mistério desta vida
É viver, não é morrer
A vida nunca se acaba
É um circulo, uma escada
Para evoluir e crescer.

BGG da Mata Virgem
Poeta Popular
Uauá - Bahia - Brasil

(13 de Setembro de 1979)

sábado, 18 de abril de 2009

Quando ainda



A chuva está caindo
imitando a noite passada
quando ainda minha lágrima
o meu rosto encobria
e a porta entreaberta
mostrando uma goteira
que molhando todo o chão
ressona em sol menor
do que a lua que maior
nem olhando dá pra ver
pois a porta entreaberta
só porque mostra a goteira
não me deixa adormecer

Victor Fidel

Quem dera...



Quem dera minha mente fosse uma pena
que pena que ela não é uma caneta,
mas minha mente é translúcida,
transparente, reluzente...
Minha mente não mente,
ela sente.

Victor Fidel / Paulo Dias

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Quem vencerá?



Quero que os ossos das minhas pernas
Virem pau de cerca,
Dos meus braços, estandartes
Desse povo de conselheiro
Eu quero continuar nesse planeta

Não pense você que fica sem resolver
Precisa parar agora para continuar
A espécie humana, todo bicho, toda flora
E se deixarmos de existir o planeta se reconstituir
Certeza que tão cedo o sol não vai morrer
Não posso ir eu quero ter, eu quero ver você
Se por acaso eu for... Não importa
O importante é continuar coisas como eu!

Quero que os ossos das minhas pernas
Virem pau de cerca
Dos meus braços estandartes
Desse povo de conselheiro
Eu quero continuar nesse planeta

Claudio Barris

Receita de mulher



A mulher pra ser mulher
Não precisa desfilar na passarela
Mas sendo cheirosa, ajeitada
Eu tiro o chapéu pra ela

Se tiver o pé de anjo,
O cheiro de fruta, a pele macia
Se for manhosa, fogosa, carinhosa
Umbigo redondo e fundo
Que é pra beber água fria

Se tiver cintura de violão
A pisada leve que nem toca no chão
A boca de mel da cor de cereja
Que quando beija lampeja
E massageia o coração

Se tiver o sorriso de marfim
Tornozelo fino, ser dona do nariz
Os cabelos grandes, a palavra boa
Perfil de patroa e princesa que pede bis

Se tiver os olhos de lua cheia
No pé das orêia penuge de cana nova
Tem que ter bondade, sorriso que ilumina
Sonho de menina que todo dia renova

E o homem tem que ser homem,
Pra merecer
pois o homem só será
se a mulher deixar nascer.

Juraildes da Cruz

E o povo gritando amém



Eu já tô com esta idade
Papai beirando os noventa
Louvo pela mocidade
Com vinte, trinta e quarenta
Dizia em tom revoltando:
- Este é um governo safado,
Mais um governo que vem
Perante a lei fundiária
Fará uma reforma agrária
E o povo gritando amém!

Feito um bicho oprimido
Sofrendo apuro e desgosto
Papai ficou convencido
Que rei morrido é rei posto
No dia da eleição
Papai virou cidadão
Mamãe, cidadã também
Votaram em força contrária
Querendo a reforma agrária
E o povo gritando amém!

A coisa foi piorando
Pro lado dos piorais
E a tal reforma ficando
Pra trás, pra trás e pra trás
Hoje o poeta Quirino
Diante de um Vivaldino
Não abro nem para um trem
Abordando este problema
Meto o pau com meus poemas
E o povo gritando amém

A coisa se melhorando
Cheio de mais, mais e mais, mais
E a tal reforma ficando
Pra trás, pra trás e pra trás
Hoje o poeta Quirino
Diante de um Vivaldino
Não abro nem para um trem
Abordando este problema
Meto o pau com meus poemas
E o povo gritando amém

Jessier Quirino

A força que nunca seca



Já se pode ver ao longe
A senhora com a lata na cabeça
Equilibrando a lata vesga
Mais do que o corpo dita
Que faz o equilíbrio cego
A lata não mostra
O corpo que entorta
Pra lata ficar reta
Pra cada braço uma força
De força não geme uma nota
A lata só cerca, não leva
A água na estrada morta
E a força que nunca seca
Pra água que é tão pouca.

Chico César/Vanessa da Matta

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Mais novo e crescido



É tão fraco o meu ser tão forte
Que pago caro por ser o tudo que sou,
Lanço a palavra lá dentro do universo
E n’um piscar de olho, pronto!
Derramo da gaveta do tempo
O guardado da escrita sem melodia,
Que eu mesmo pego e me dou.

Que fardo medonho carrego
Quando penso que penso a pensar,
Tem noites sem estrelas que bordo
Em céu as continhas do mar
E em mim vou tecendo a velhice
Que vem de encontro à infância,
Aquela que quando criança
Por certo haverá de passar

E depois de tê-la compreendido
A roupa do firmamento
A agulha que fura o tempo
Da lembrança o tudo esquecido
Me vejo mais novo e crescido
E em todos os mundos estarei
Já restaurado de rima e de verso
Sozinho e forte sou fraco, confesso!
Ás vezes na terra, ás vezes no ar
Na lida da luta pra recomeçar,
No meio de mim ou sozinho "aculá."

Paulinho Jequié / Victor Fidel

terça-feira, 14 de abril de 2009

Estação Eu



Eu sou um pouco de cada um
Que passou por mim,
Eu sou um pouco pra cada um
Que venha passar,
De antemão, sou uma estação
Daquelas que vem e vão
Eu acho que sou assim
Do jeito que eu sou
Do jeito que é pra ficar.

Victor Fidel

E Ponto Final



Poesia e poeta caminham na contra mão do tempo
Um por ter perdido tempo à escrevendo
E a outra por ter sido gerada em meio ao o mesmo.
E nessa labuta infinita tanto incha quanto irrita,
Mas eu sei, eu sei que nunca sei,
Pois todo caminho exige tempo
E ai de quem não o tenha encontrado!

Por esse motivo insano tenho transformado minha lida,
Ás vezes vida, rompendo o clarão da vista,
Tal qual poeta rodeado de falsas pessoas
Lendo a pessoa.

E assim continua o ciclo da virtude,
Onde quem ler gente é gente
Onde quem ver Deus é demente.
E ainda, nada de rima na sina da vida,
Pois ela por si só, já se fez rimar.

Quando olho a rima e a vida
Perco-me nas pautas do papel,
Pois o meu papel é sem pauta
E quando criança voava nas “branquetudes”
Das folhas que hoje viram numa escrita mágica
A poesia ser formada.

E assim, quando alguém me rima
Prendo-me no laço do destino
Abro mão da liberdade que se segue
Nos breus do tempo.

Ah! Meu Pai! Ah! Embaraço meu!
Tudo é culpa desse laço
Que o destino jogou nos braços seus!
Agora como fico nas veredas da imaginação?
Como navegarei aprendendo a ser grande?
É um dia de fato usarei toda essa fortuna poética
No dicionário da minha vida, ah!, ah!, ah!, ah!,
E ponto final.

Paulinho Jequié / Victor Fidel

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Romano Nunes (Cabelo)

Vontade



Vontade de passar na tua porta,
Vontade de bater no teu portão
Vontade de pedir um copo d'água,
E assim poder tocar na tua mão

E assim poder falar do meu amor,
E assim te revelar minha paixão
E assim poder falar do meu amor,
E assim te revelar minha paixão

Eu sou apaixonado por você,
Desde menino, desde pequeno
Só não tive coragem pra dizer,
Que tô queimando, tô me roendo...

Accioly Neto

Madrugada



Madrugada
Estrelas desamparadas
Perdidas na estrada
Caíram em minhas mãos
Os pássaros
Abandonaram os ninhos
Vieram pousar em meus ombros
Nas veredas do caminho
A lua
De tanto susto se deitou
Na solidão das ruas desertas
Afastando a minha dor
Roubaram-me os segredos e os mistérios
Na minha face, nasceu uma flor
E o perfume caminhando pelo ar
Penetrando a minha carne
Num ato de amor.

Fábio Paes

Debaixo do céu



Quem achar debaixo do céu
O caminho em que se perdeu
Multiplicará sua emoção
Pelas voltas que o mundo deu
Assumir no grande escarcéu
A loucura que não viveu
Nas profundas de tantos céus
Nos infernos de tanto deus
Só assim ressuscitará
Tanta vida que já morreu
Tanto amor que se queria dar
Tanta coisa que não se deu
É preciso só começar
Pois a força do que será
Já está no que pode ser
No mangue nas águas
Do mar
No prostíbulo no pomar
Na pessoa que vai nascer.

Raimundo Sodré / Jorge Portugal

A Genoveva não sabe o que diz



[Paródia para Palpite Infeliz]
[Da operete Ladrão de Galinha]

A Genovena não sabe o que diz
E nunca soube onde tem o nariz
Salve as aves, os ovos, as ovas
E as cozinheiras bem novas
Às quais sempre quis um grande bem
O Meyer encontrou, enfim, alguém
Que amansa galos e pintos também.

Pegar um galo lá no Meyer é brinquedo
Bomba de gás lacrimejante é meu segredo
Mas na saída a gente cala e o galo faz "cocorocó"
E o cão rasga o nosso paletó.

Noel Rosa

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Andy Mckee

Por Darfur



Diz que tua maldade
é só loucura,…
fruto de uma dor insuportável
que nem mesmo o
tempo curou.
.
Deixa que eu sinta
alguma culpa.
Divida comigo esses crimes,…
tu que irás beber
todo esse sangue,
derramado em nome
da ambição.
.
Mente!
Tenta iludir o orto das lágrimas!
Pois não quero crer
que seja, o homem,
o mais carniceiro
dos Leviatãs.

André L. Soares

Nosso sangue



O nosso sangue persegue o movimento,
o domínio líquido circular das elipses
como as águas revoltas do grande mar.

Tem dentro de si a dignidade dum cacto
contemplando as areias do deserto,
resistindo às sedes, aos ventos ásperos

mas não resiste aos crepúsculos do sol
o trânsito pelos caminhos que se apertam
esmaecendo limando as arestas da utopia.

Vieira Calado

Mudanças



Deixar ato de não ter
Precisar mudar, fato
Entrar de sola
Ser a mola
Estar em voga
Não ter o que amola
Fatos contidos e por nós feitos
Amores desfeitos pedaços no chão
Espera da desilusão?
Não, quem sabe o recomeçar do coração.

J Neto

terça-feira, 7 de abril de 2009

Só Hoje



O meu tempo começa a cada dia,
quando nas entrelinhas da vida permaneço,
e com um ar de serenidade limpo
meio confuso o suor do meu rosto.
Às vezes disfarço meu não contentamento
E contente minto para o meu eu.
Já me dei várias medalhas,
com um sadismo sem igual...
Simbolicamente as recebo como se fosse
cada uma delas um dia a mais que vivi.
Hoje, acho que é um dia comum,
mais sempre um chato me vem
e com um ar de cinismo me deseja
uma felicidade que nem ele tem.
Fico até meio assim,
pois já ouvir alguém dizer que:
“Todo dia é dia de viver!”
Então tirarei do guarda roupa
aquela camisa amassada,
botarei um perfume “veja eu”
e saudarei a vida com um ar de doido
pois hoje,
É o meu aniversário!

Paulinho Jequié para Victor Fidel
Salvador-Bahia 07/04/2009

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Amarra o teu arado a uma estrela



Se os frutos produzidos pela terra
Ainda não são
Tão doces e polpudos quanto as peras
Da tua ilusão
Amarra o teu arado a uma estrela
E os tempos darão
Safras e safras de sonhos
Quilos e quilos de amor
Noutros planetas risonhos
Outras espécies de dor

Se os campos cultivados neste mundo
São duros demais
E os solos assolados pela guerra
Não produzem a paz
Amarra o teu arado a uma estrela
E aí tu serás
O lavrador louco dos astros
O camponês solto nos céus
E quanto mais longe da terra
Tanto mais longe de Deus

Gilberto Gil

Risos rasgados



Coração,
Violaram sua porta, minaram suas certezas vans
Que já não compravam mais meias verdades
Que já não censuram mais meias palavras
Que não rememoram mais antigos lamentos

Ilusão
No aconchego da cama
No incômodo espelho lá!
Cada dia a ressaltar marcas antigas
Relembrando o desperdício de risos rasgados
Iludindo o coração um menino pra certeza de outro amor
A embarcar noutra viagem sem destino

Vai coração,
Troca de roupa que o verão já chegou
Esquece a canção e desfila
Pois é carnaval novamente no seu coração

Du Marques

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Desde que eu era pequeno, nunca vi cupim em flor!



Já vi ateu na igreja
Procurar pelo divino
Já vi "ômi" ser menino
No titanic "avoano"
Já vi vaca "calculano"
A linhagem do metrô
O bode do seu avô
Comprar aquele terreno
Desde que eu era pequeno
Nunca vi cupim em flor!


[Victor Fidel]

Já vi jegue com buzina
Correr na fómula um
Já vi bufa de anum
Virar perfume francês
Vi dois mais dois virar três
Nas "tába" do "véi" moisés
Vi santo chingar o andor
E ir dormir no sereno
Desde que eu era pequeno
Nunca vi cupim em flor!


[Walter Lajes]

Já vi poeta com medo
De entrar numa porfia
Isso antes de meio dia
E não vou guardar segredo
Já vi o resto do enredo
Pois vi “quatro cantador”
Um pedindo por favor!
E outro chorando ameno
Desde que eu era pequeno
Nunca vi cupim em flor!

[Maviael Melo]

Já vi cego em tiroteio
Matar dois com um tiro só
Já vi cobra dando nó
No cadarço do seu sapato
Já vi cálculo inexato
Que o Rio de Contas aprovô
Vi até vereador
Brigando por um aceno
Desde que eu era pequeno
Nunca vi cupim em flor!

[Max Ribeiro]

Já vi santo de satanás
Pedir benção à expedito
Um mudo soltando um grito
N'um candeeiro de gás
Já vi menina rapaz
Querendo ser um "dotô"
E um paciente com dor
Tomar dose de veneno
Desde que eu era pequeno
Nunca vi cupim em flor!

[Zé Estrela]

Eu vi uma cega um dia
Atravessando uma faixa
Embrulhado numa caixa
Um cachorro era seu guia
Eu vi nascer na Bahia
Um mulato jogador
Que se chamava Bobô
Que hoje está se “escondeno”
Desde que eu era pequeno
Nunca vi cupim em flor!

[Juninho de Assis]

Vi mundo de todo jeito
Nascer de um Big-Bang
Vi criarem o mal e o bem
Falando frase em latim
Fiz até mundo pra mim
Que ninguém concordô
Como o que Fidel criô
Pra Compô com João Sereno
Desde que eu era pequeno
Nunca vi cupim em flor!

[Wesley Carvalho]

Ja vi barata estar tonta
Afrontando qualquer pé
Na porta do cabaré
Ja vi uma freira rezando
O lodo chingando o pano
Por ser o seu limpadô
Ja vi doido bebedor
Engolir acetileno
Desde que eu era pequeno
Nunca vi cupim em flor!

[João Sereno]

Vi enchente no sertão
Inundar o universo
Já vi um mudo cantador
Que é mestre em fazer verso
Tenho visto medicina
Que relaxa com a dor
Penitência nessa vida
Que se paga com amor
Desde que eu era pequeno
Nunca vi cupim em flor!

[Galdencio]

Já vi cangaceiro correndo
De uma avalanche de gelo
Atravessou "inté" o mar vermelho
Pra fabricar uma cerveja
Já vi semente de cereja
Dentro de um amplificador
"Berrano" pra um "sinhô"
Que tinha dor no duodeno
Desde que eu era pequeno
Nunca vi cupim em flor!


[Rennan Mendes]

Já vi anjo cantadô
Preso que nem passarín
Ainda piquininím
Vi um jegue vuadô.
Vi briga de bêija-frô
Contra gavião-penêra
Vi cego de mêi-di-fêra
Jurano qui tava vêno
Desde que eu era pequeno
Nunca vi cupim em flor!

[Zé Araújo]

Já vi corno perdoar
A mulher e o amante
Tomando refrigerante
Já vi um tamanduá
Já vi anjo se cansar
E ir pro céu de elevador
Já vi mudo ser cantor
E até forró de chileno
Desde que eu era pequeno
Nunca vi cupim em flor!


[Zecalu Guimarães]

Eu já vi dia sem sol
Nevando lá no sertão
Vi dois caipira em londres 
Cantando em alemão
Já vi freira casada
Que o padre era o amante
E já vi pavão sem cor
Todo feio e fedeno
Desde que eu era pequeno
Nunca vi cupim em flor

[Claudio Barris]

El Carretero



Va sin descansar
un carretero con su carga a la ciudad
y en su cantar
pregó la dicha del campo en la inmensidad
entre sombra y luz
con el jijuza va marchando hasta el poblao
mientras el vaivén
añora dulce de su chango el moraiju
sus ritmicos sons van sazonando el dulzor
de las frutas tiernas que se lleva pa' vender
y su lento andar va inspirando al carretón
la dulce canción que gime el eje al traquetear
a su querer de vuelta ya
donde su amada lo espera com rico sonor
su corazón contento está
y en su guitarra cantando da
gracias a Dios.

José René Moreno

quinta-feira, 2 de abril de 2009

A Flauta Vértebra



A todos vocês,
que eu amei e que eu amo,
ícones guardados num coração-caverna,
como quem num banquete ergue a taça e celebra,
repleto de versos levanto meu crânio.

Penso, mais de uma vez:
seria melhor talvez
pôr-me o ponto final de um balaço.
Em todo caso
eu
hoje vou dar meu concerto de adeus.

Memória!
Convoca aos salões do cérebro
um renque inumerável de amadas.
Verte o riso de pupila em pupila,
veste a noite de núpcias passadas.
De corpo a corpo verta a alegria.
esta noite ficará na História.
Hoje executarei meus versos
na flauta de minhas próprias vértebras.

Vladimir Maiakóvski
(Tradução: Haroldo de Campos e Boris Schnaiderman)

Fruta Mulher



"Fico no mundo da lua
Quando você vem me amar
Teu olhar me põe toda nua
Que gostosa me apaixonar...
Por você

Há um outro lado dos contos de fada
Eu sou diplomada, fui contra a maré
Sou fruta madura, sou mais que sofrida
Sou doida varrida, sou mais que mulher

Bebi o passado, traguei o presente
Tornei-me valente pra sobreviver
Eu fui muito errada ficando marcada
Agora aparece você

Me deu de presente um brilho na alma
A Estrela mais Dalva, a luz de Plutão
Fui sua rainha, a Virgem de Vênus
A dona do seu coração

Fico no mundo da lua
Quando você vem me amar
Teu olhar me põe toda nua
Que gostosa me apaixonar...
Por você"

Vevé Calazans

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Moradas



Corra, doe, voe, vá levar o amor.
Amar a se e o ser, assim seremos.
Na lida dos sonhos,
Cante, encante sua alma
Na força da canção

A luz que vem da imensidão
Te acompanhará na estrada

O céu a lua o sol o riso o mar
A terra a água a fauna a flora o ar
Sinta, viva o seu interior.
E a natureza mãe te abençoará

Abra bem seu coração que a paz e o amor
Estão vindos em procissão
Calar pra sempre a voz da dor

E deixem que em ti façam moradas
Pra te entregar ao esplendor do amor.

Marcelo Nunes

Jogo da vida



Entra o dia
que se perde na noite
e se encontra no fim,
pra chegar novamente
a brilhar de mansinho
na manhã passarinho
que é de rouge e carmim

Entra a noite serena
na novena do povo
que arrasta a cidade
em promessa de sol
e pra sobreviver
tem que se alimentar
com a isca e o anzol

E no jogo da vida
todo dia é uma prova
que exige outra nova
e de pobre, enobrece
e mostra que é sofrida
mas na tela da vida
mais um dia amanhece

Claudio Barris / Victor Fidel