terça-feira, 31 de março de 2009
O Filósofo e o Jegue
que no fundo da panela
não nasceu um pé de arroz
xinguei meu gato: "urubu da boca mole"
o dentista quase engole
A jaca dura
e o alicate de nós dois
da mariente dei bananas astronautias
urienei todas ribaltas
que o meu jegue não mordeu
eu via lua debruçar-se em gargalhada
minha lua é uma coalhada
que o gerente não comeu
quen, quen, quen, quen, quen
Cachaça errada éu um pirulito de madame
faca cega no salame
dar um coice no perdão
o lobisomem é meu velho e meu xerife
vou rimar como o nosso chifre
vou varrer do apartamento
essa palavra solidão
de azul e branco fiz meu sonho de domingo
com baralho dama e bingo
mas ninguém pode jogar
se não olharem minha lua, tão airosa
a poesia escandalosa ninguém mais vai vomitar
quen, quen, quen, quen, quen
Os senadores capengando um pau-de-arara
futuquei com a minha vara
uma nuvem lá no céu
caiu Regan, cabôclo Ritle, Margarete
mocotó com espagate
rapadura e um canivete
nós cumeu foi no chapéu
comi sabão com guardanapo e com goiaba
prato esperto que pirava meu pisquiatra Béu
comi alua com um copo de memória
me escondi dentro da história
no meu Morro do Chapeú
quen, quen, quen, quen, quen
Wilson Aragão
Fragmento nº 14
Passe como a linha do horizonte
Na agulha de costura
Que constrói o véu do céu
E faz da vida uma rede
Pra ninar gente adulta
E mostrar que o homem é recruta
E o mundo bacharel.
Victor Fidel
Erros
Como a dor de um Deus sozinho
Da rosa que perde os espinhos
Da fé, sem um Alá
De comer sem paladar
De ter o que não ter pra dar
Como caminhar correr
E não andar
Dormir ter sonhos e não lembrar
Ser pregado, crucificado
E ainda continuar errado
Mentir para um espelho
Jurar de joelhos
Apunhalar seu parceiro
Ficar com sua amada
Fingir que não lembra
Roubar uma cigana
Em sua própria tenda
Mentir, e enganar-se
Beijar Cristo na face
Ver tudo como um menino
Que reconhece sorrindo
Os erros do destino.
Kaká Bahia
Juazeiro / Petrolina
Pelas mágoas dos olhos da saudade
Quando cantam dor e fatalidade
Na poesia das águas do ciúme
Quanto mais arde o corte afia-se o gume
frio e sutil da faca-vaidade
Nas pontas da ponte duas cidades
Curtem a sorte do RIO nos curtumes
Quanto mais se renegam mais se têm
pelos beijos perdidos que se acham
no abandono do adorno do seu cais
Que não fique esse "rio de barbas brancas"
Caducando na sede de esperança
Pelas águas que não virão jamais.
segunda-feira, 30 de março de 2009
Eu não quero saber
se você sabe de mim,
agora eu quero é o fim
dessa ressaca de amor
desse tempo malfeitor
que nos fez aclimatar
que nos faz desenlaçar
e que nos fará decompor
queria eu, mandar em mim
pelo menos aqui,
nesse verso machucado.
Victor Fidel
O amor em si
É o dom da vida
É o sim e o não
O amor é a malvadeza
E o mais puro perdão
É a verdade mais sincera
E a calunia do irmão
O amor mostra a face da doçura
E a impiedosa tortura
O amor é uma fogueira acesa
E a frieza do carvão
É o calor do afeto
E o frio do deserto
É a duvida do incerto
E o amor de um feto
É a mão estendida de um pai
E a distancia crescente do cais
É a pureza da rosa
E o ferimento do espinho
É a escassez da pobreza
E a fartura da riqueza
O amor é a corda da ancora
Ou o nó da forca
O amor é a contra mão da estrada
E a certeza do caminho
O amor é a atitude mais rude
E o infinito carinho.
Kaká Bahia
Entre a reflexão e o medo
o medo dá instinto cangaceiro;
em momentos de reflexão, porém,
o medo é desastroso conselheiro.
Se o medo de cair pode impedir a caminhada,
também pode evitar imprudências na estrada.
Se quem cede ao medo semeia frustração,
quem despreza o medo, se arrisca sem razão.
Com a evolução da consciência
descobrem-se dois lados nesta via;
se, às vezes, é preciso ter prudência
outras vezes, simplesmente, é covardia.
Fases
Na tua sede
Se fosse sombra
Te protegia
Sou a paz e agonia
Sou tempestade
E calmaria
Eu sou crescente
Minguante e agora
Eu sou amor
Eu sou a dor e agora?
Se fosse um sonho te acordaria
Se fosse um sono te adormecia
Eu sou uma estrada
Que não tem guia
Se tu me segues o que seria
De mim de te e agora
Eu sou não sou e agora
Eu sou amor
Eu sou a dor e agora?
Daniel Gomes
Puta, Deputado, Computador, Da Putada...
Segundo o mestre Junito de Souza Brandão, na sua trilogia sobre mitologia grega, a palavra Puta em latim era de uma deusa muito antiga e importante. Provém do verbo putare (podar, cortar ramos de uma árvore, por em ordem, contar, calcular, pensar, julgar etc). Dessa antiga deusa, que presidia a podadura, derivam várias palavras em português como: deputado, amputar, putativo, computar, reputação etc. Já meretriz veio de meretrix, que significava merecer, receber seu soldo por merecimento etc. Muito anos mais tarde essas duas palavras tomaram conotação depreciativa. O incrível é que o povo, inconscientemente, percebeu essa raiz latina, pois uma vez, enquanto fazia uma consulta, disse a uma paciente minha que ia me candidatar a deputado, e ela retrucou: "Que nada Dr. Ruy, o senhor é candidato da-putada" Perceberam a fina ironia na raiz comum? Desde este tempo desisti de ser deputado e para sempre me tornei candidato da-putada. Me dei bem, foi o que pude computar.
Não Ria Maria Airam
Não ria que a vida é vã
No sofá coaxa a rã
No sapato o sapo chia
Olha que nem deu mei dia
E já estou no divã
Olha que o jegue anuncia
A cada hora um estalo
Batendo com seu badalo
Acordando a freguesia
Se me falta o jeito jegue
Não me falta a estripulia
Se não alcanço tal medida
Ultrapasso a pontaria
E é por isso que te digo:
Maria Airam: Não ria
Ruy Penalva
domingo, 29 de março de 2009
Sina Sagaz
Deslizo qual barco menino
Nas correntezas da sina
Descortinando o véu das paragens
Sigo o destino despindo horizontes
Na aura sagrada vou quebrando
Tramelas das correntezas da lida
Feito ébrio delirando em sapiência
Os versos tão feios e belos
Ora verdadeiros, ora mentirosos,
Vou-me desnudando em flagelos
Das cores cravadas em minh’alma
Brotam versos que gemem calados
Os calos já estão calejados
Já não dói o corte da navalha
Foi-se embora a alegria
Deixou um corte profundo
Lâmina curva de peito amolado
Coice na boca do mundo
Calo-me com a dor que não cessa
Vou estancando a ferida
Nas noites manhãs e tardinhas
Banho-me de calmaria
E trago um manto de amor
Marcelo Nunes / Cleber Eduão
sexta-feira, 27 de março de 2009
Porque

Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.
Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.
Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.
Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.
Sophia de Mello Breyner Andresen.
Chegada e permanência
a criança abriu os olhos e viu tanto brilho
disseram que a mãe
deu-lhe a luz
- puta que pariu!
- quanta luz!
a criança chorou,
tomou banho e se vestiu
no mundo da luz
a criança não sorriu
pediu silêncio,
pediu escuro e dormiu
II
e veio fome de peito,
fome de pão e de afeto
colo de mãe e de pai
e antes do chão, viu o teto
o clarão diminuindo
cada imagem clareando
cores das coisas, foi vendo
vida se foi tecendo
a textura, o mole, o duro
e o território do quarto
desenhando o seu futuro
o sexo e a identidade
pendurados nas paredes
nas cores e nos brinquedinhos
um dizer silencioso
na pelúcia dos bichinhos
e a criança escutando
tornando-se aos pouquinhos
por cada dizer profundo
que falam todas coisas
um ser total deste mundo.
A cartela do bingo
Um fato que se assuscedeu
Com o caboclo Marivaldo
Que por sinal é primo meu
Casado com a Bibina
Uma mulher tirada a fina
Filha do seu Aristeu
Como em todo casamento
Há tempo bom e ruim
A relação de Marivaldo
Com Bibina tava assim
Totalmente complicada
Uma relação arruinada
Caminhando para o fim
Tudo porque Bibina
Por uma decisão sua
Vivia saindo de casa
Entra em lua, sai lua
Marivaldo descuidava
E a danada escapava
Botava a cara na rua
Pra dar desculpa a Marivaldo
Bibina era uma artista
Um dia tinha ido igreja
No outro ao ginecologista
Fora o cabeleireiro que ia
E o tratamento que fazia
No diabo do dentista
Quando as desculpas cansaram
Bibina se renovou
E ao pobre do Marivaldo
Outra história inventou
Bibina não negou fogo
Inventou que tava no jogo
E ganhara um liquidificador
- Tava no bingo
Meu querido Marivaldo
Ontem tava de sorte
E olhe o resultado
Ganhei dois mil reais
E hoje vou ganhar mais
Deixe seus dedos cruzado
No dia seguinte
Que por sinal era domingo
Bibina sumiu no mundo
Remorso não teve um pingo
Voltou de madrugada
Com uma caneta dourada
Dizendo: “- ganhei no bingo!”
E tome sumir no mundo
Marivaldo invocado
Ele inventava de ir
Ela dava logo um recado
- Não queira tirar minha sorte
Fique rezando forte
Que eu volto logo, amado!
E desaparecia no mundo
Teve vez de dormir fora
Marivaldo esbravejava
Prometia mandá-la embora
E Bibina cheia de gingo
Dizia: - Só porque fui no bingo
Tu vai me largar agora?
Ganhei uma televisão
Tá na sala pra provar
Ou homi besta
Nem deixa a mulher jogar?
Marivaldo se aquietava
No outro dia ela escapava
E demorava voltar
Ai no dia seguinte
Bibina no seu assanho
Avisou: - Vou pro bingo
E acho que hoje ganho!
E num jeito faceiro
Emburacou no banheiro
Para tomar o seu banho
E logo depois
De no banheiro entrar
Ela resmungou alto
Essa distribuidora é de lascar
Em pleno domingo
Na hora de eu ir pro bingo
A água tem que acabar?
- Marivaldo, Marivaldo!
Gritou a se escabelar
O diacho da água acabou
Isso é hora de acabar?
Pra eu não ficar com mágoa
Me arranje uma bacia d água
Que eu preciso me banhar
Marivaldo invocado
Pegou uma caneca amarela
Foi no tanque do quintal
E Pegou a água nela
E naquela raiva retada
Disse: - tome sua safada
Lave pelo menos a cartela!
Wilson Duarte
Um mês arretado!
O mês das Águas..., águas duras e salobras, etílicas e correntes... doces águas, nascentes de mulheres, mulheres..... Às mulheres: "marços" de sorrisos, cheios de sons e cores, sem dores nem golpes!
Março do golpe, de sonhos tolidos, entre gritos escondidos dos que foram escondidos por palavras infiéis, que sumiram sem querer e saber, e nem ver que a volta estava por vir. E, em dias contados a sangues e medos, o golpe de março caiu!
Março da conquista, do novo sonho, do recomeço, dos novos dias sonhados na massa do pão, no martelo que “desaprega” as palavras contidas a força, do corte da foice, que afirma que é nosso... O Chão, e a nossa vez!
Março, das águas de Tom, no tom da canção, o sonho é a vez,
..... " é pau, é pedra, é o fim do caminho... são as águas de março...." no novo caminho da cor..., " do sonho antigo, da cor da aurora que se levanta".
25 Vivas à revolução humana!
quarta-feira, 25 de março de 2009
Ancorado na solidão
Fazendo um nó na garganta
Alimentando de sal toda esperança
Que um dia me fez viajar em sonhos
Aquela pedra do porto
Onde avistávamos o lindo vôo das gaivotas
Continua lá, e toda tardinha
Revivo morrendo nós dois,
E faço vir à tona
Aquela lágrima que me fizeste engolir
Não sei dos tornados que avassalam o mundo,
Mas meu mundo foi transformado num deles
Quando me fizeste sonhar
Alimentando de mar toda esperança
Que ainda morava em mim
Hoje, olho o horizonte e me perco
Na imensidão do nada que me tornastes
Desde aquele maldito dia lá no porto
Onde eu menino e cheio de esperança,
Tu fizeste matar minha sede
Com aquela lágrima que me fizeste engolir
Victor Fidel / Paulinho Jequié
terça-feira, 24 de março de 2009
Me pôpe, também sou pópi
eu lhe toquei um xote
você olhou pra mim assim
assim, assim meio que não me toque
a vitrola da vizinha
só tocava rock
seu piercing me comovia
mas eu não tocava nada
que você queria
Oxênte, me pôpe apois se toque
Luiz Gonzaga era pópi
e você não sabia
Você não sabe que eu sei
que você não sabe
que o mundo cabe
na palma da sua mão
como se fosse
Jackson panderiando
na simetria social da "divisão"
O seu ponto de vista
tá meio fora de ótica
quem viu o vinil rodar
viu que ele bem se sucedeu
mas também viu que ele cedeu
o lugar pro CD
o contra-ponto que existe
entre a agulha e o olho
é o contra-tempo que você não pode ver
Oxênte, me pôpi apois se toque
Luiz Gonzaga era pópi e aqui pra você!
Oxênte, me pôpi apois se toque
saiba que eu também sou pópi
e aqui pra você!!!
- Ó!!!
Zé Araújo
Gato de Xópi
sou feito faca peixeira
que não perde o fio
sou feito mandacarú:
Nem sombra, nem encosto!
Em cima d'êu ninguém sapateia
sou pedra de rio
Sou feito chôro de saudade
que ninguém segura
em meu côro bala não entra,
punhal não fura!
Me criei comendo farinha
carne assada e rapadura
não levo pra casa
"disafôro" ou "disacato"
Não sou chique, sou feito xique-xique
Não sou fino, nem aceito "fino trato"
O que você acha fashion, acho feio e fim de papo!!!
Não sou gato de xópi
Sou bicho do mato!
Não sou gato de xópi
Sou bicho do mato!
Eu num sô gato de xopíng
Sou bicho do mato!!!
Zé Araújo

Na televisão um sábio senhor fala da vida dele.
Lua de tapioca
Com a goma e o coco a me banhar
Sinto meu coração corcovear
Por estar no abandono abandonado
E sozinho que nem boi de arado
Me avermelho que é ver flor de quipá
E se algum alegreiro me jogar
Tanto assim de alegria, eu arrenego
Porque fico que nem olho de cego
Que só serve somente pra chorar.
É a lua acendendo a lamparina
E meu facho de luz a se apagar
Com as bochecha chorada a se chorar
Taliquá mamão verde catucado
Mas porém, sinto meu peito caiado
Quando vejo de longe o riso teu
Igualmente a um morrido que viveu
Peço que teu socorro não demore
E que só minha fala te sonore
E que dentro de ti só more eu.
Jessier Quirino
Versos Neofilofônicos
trazendo alfinim comprado no acre
a boca de tia só presta com lacre
a mosca só entra porque não fechou
a porta não fecha que o ladrão levou
o ladrão correu querendo voar
num sete três sete vai montar um bar
que deus me defenda de cobra que voa
ninguém vira gente se não for pessoa
e vive nadando na beira do mar!
De posse da toga vesti a batina
contei minhas "nica" pousando de Nero
quem diz que é tem-tem nem é quero-quero
meu jegue retou-se e não se afina
com o pé de relógio que eu trouxe da china!
Meu grilo tá rouco, nem pode dançar
meu sapo tá louco, só vive a rezar
me deu custipiu na navegação
que eu troquei um bote por um caminhão
que nunca se atola na beira do mar!
Num dia de lua cantei um mourão
derrubei martelo que vinha a galope
depois um anão acima do tope
subiu no juá pra tirar melão
nunca tive medo de assombração
mas se é meia noite não posso cantar
porque a pavoa vem me devorar
por isso só canto na praia ou no cais
morri uma vez, mas não morro mais
pois sei que me salvo na beira do mar!
Fiquei inveréve numa pulustria
e um véio tromposo se via proscóide
nadando nervoso cuspiu alcalóide
chanchou trolinete no choque da enguia
foi melro, arraia, foi sapo, foi gia
subindo aos montes só pra lhe pegar
dessa livusia eu quero escapar
suponho que tudo ipóticamente
foi fruto do sonho no incosciente
neofilejando na beira do mar!
Poesia cordélica zelimeiriana:
Walter Lajes
Sorriado
Dedique-se se quer ser dedicado,
Sorria se quer ser sorriado,
Sem troco e sem pagar,
Mas pelo prazer de gostar.
Não espere de ninguém
Então antes de penar,
Pra talvez, amanhã,
segunda-feira, 23 de março de 2009
Frieza, pobreza...
"Me falaram sobre linguas distantes
Mas percebi que o longínquo era muito perto
Me informaram
que pagariam três contos a mais
em minha simples "farinha"
Mas esqueceram
de me dizer que aqui
não tinha "rapadura"
Ah! Me disseram também
que o frio dos verdes de cá
em pleno outubro, não seria a primavera
e assim vi que as folhas caiam
camuflando o que pra nós
chamariamos de pobreza..."
Rennan Mendes
Relógio de ponto

Tudo que levamos a sério
torna-se amargo. Assim os jogos,
a poesia, todos os pássaros,
mais do que tudo: todo o amor.
De quando em quando faltaremos
a algum compromisso na Terra,
e atravessaremos os córregos
cheios de areia, após as chuvas.
Se alguma súbita alegria
retardar o nosso regresso,
um inesperado companheiro
marcará o nosso cartão.
Tudo que levamos a sério
torna-se amargo. Assim as faixas
da vitória, a própria vitória,
mais do que tudo: o próprio Céu.
De quando em quando faltaremos
a algum compromisso na Terra,
e lavaremos as pupilas
cegas com o verniz das estrelas.
Alberto da Cunha Melo
Deserto Humano
À alma os sentimentos
À razão
os conceitos cognitivos
À vida
o direito de adorar o templo
sagrado do ser
Ao ser
o refúgio no seu asilo interior
Ao coração
o mundo das cores
adormecidas nas
quietudes do universo
Ao universo
o medo das dores do mundo
cercado pelos paradigmas
do deserto humano.
sexta-feira, 20 de março de 2009
quinta-feira, 19 de março de 2009
Meu coração que é seu

Acordei, morena!
Com o coração de um outro alguém
Já me fazia tão bem
Que por um instante te esqueci,
Até tentei sorrir,
Virei de lado e imaginei
Se o coração fosse de um rei
Daquele que tem castelo
Eu lhe daria o mais belo
Dos versos que já sonhei
Parando de imaginar
Penso que posso lhe dar
O céu do jeito que queres:
A força das ondas do mar
Um cello tocando Bach,
Viro até mesmo plebeu,
Pois o coração que me deram
Também ficou sendo seu.
Qual fosse doce mel
Qual fosse mel que é doce
Receba o meu coração
Que agora mesmo que fosse
A batida forte do bumbo
Compositor compondo o mundo
Eterna pra sempre seria,
Veia horta da minha vida
Luz que me clareia o dia.
E nessa batida forte
Vou compondo outra canção
Com o coração que é de outro
Nas águas da servidão
Sirva-me tal qual banquete
E corte-me feito rolete
Mas não transplante-me da sua vida.
Paulinho Jequié / Victor Fidel
Se José cavalgasse de camelo, em hotel Cristo tinha rebentado
Transportava José, Cristo, Maria,
Escapando de morte e cativeiro
Para o pobre o transporte verdadeiro
Pro mistério por Deus requisitado
Veja só o destino já traçado
Para, humilde, Maria concebê-lo
Se José cavalgasse de camelo
Em hotel Cristo tinha rebentado
Se, no lombo de grandes animais,
No alforje, trazendo seu tesouro,
Aportasse José com muito ouro
E mais uma porção de serviçais
Não seriam deixados para trás
Hospedagem teriam encontrado
Não seria Jesus intimidado
A nascer no meio do desmantelo
Se José cavalgasse de camelo
Em hotel Cristo tinha rebentado
A história revela o nascimento
Do menino por Deus anunciado
Que não foi em pensão acomodado
Pois chegava no lombo dum jumento
Num curral a família teve assento
Entre palhas se viu realizado
O nascer de um Deus descamisado
Pra fazer do Amor o seu apelo
Se José cavalgasse de camelo
Em hotel Cristo tinha rebentado
O vivente que carregou Maria
E salvou o menino dos chacais
Simboliza o triunfo dos que mais
Tem direito à Sagrada Moradia
Se ao pobre a riqueza chega um dia
Não se veja o menor discriminado
Pois num jegue o Senhor entrou montado
Para toda cidade recebê-lo
Se José cavalgasse de camelo
Em hotel Cristo tinha rebentado
Hoje cena não muito diferente
Traz o Cristo nascendo todo dia
Sem amparo, conforto, moradia
Nem direito a viver completamente
Cidadão de final tão indecente
Mais um calo pra um mundo saturado
Mais um rei a morrer crucificado
Por não ser enquadrado num modelo
Se José cavalgasse de camelo
Em hotel Cristo tinha rebentado
Carlos Perêra
Boca do Cariri - PB
quarta-feira, 18 de março de 2009
Apologia ao nadismo
[1ª Pessoa]
Cheguei agora a dizer que você é um "caba" aglutinado de irreverências anexadas, uma subjunção de uma visão prolixa, nada além da aparição pessoal que vos cerca.
[2ª Pessoa]
A longitude demostênica da sua mais reticente, arrecentada marcação de palavreado codificado é alcovado de significação.
[1ª Pessoa]
Concordo quanto ao palavreado codificado, mas a relação inerente que faz as coisas funcionarem, levando tanta bifurcação dos nossos pensamentos, é algo agregado ao fator executável das coisas, aliás, nunca deixou de ser.
[2ª Pessoa]
Em gênero , número e grau está o meu consentimento pleno em agregado à sua atitude pensamental que ora é procedente da sua pessoa.
[1ª Pessoa]
Isso! E tudo isso é fruto de um desejo que revela a vontade de fazer algo, por tanto a funcionabilidade da vida realmente existe, até que se prove o contrário.
[2ª Pessoa]
Tão existente que de fato tem sido o que realmente nos revela como sendo.
[1ª Pessoa]
Perfeitamente, agora a vossa pessoa adentrou no entendimento relacionado a tudo isso que foi relatado por nós.
[2ª Pessoa]
Verdade.
[3ª Pessoa]
De acordo com a efemeridade das partes, os contubernáculos angiospermáticos, são factuais a inerência da prole!
"E se num for eu cegue."
e adjacentes!
Desatando nó
E o pai no xilindró
Aquele menino viveu desatando nó
Quando ele nasceu
Não disseram que era assim
A lei do mais esperto
Cada um pra si
E ter que dar seu voto
A quem não sabe dividir
Trabalhar feito doido
E o salário daqui
Não dá pra criar
Os cinco barrigudim
Vive dando murro em prego
Pra ser um homem de fato
Se emprestam não lhe pagam
Vive pagando o pato
Tá cheio de malandro
É um ninho de rato
Os mais bobo troca meia
Sem tirar o sapato
Cochilou cachimbo cai
Escorregou fica de quatro
É um cabaré de cego
Dentro de um balaio de gato
Nasceu com a mãe na zona...
Tem que ter cara e coragem
Pra tentar ganhar no grito
Tem gente vendendo a mãe
Tem gente ficando rico
Será o Mercosul
Ou será o benedito?
Quanto mais a moda é feia
Mais o povo acha bonito
Escutador de novela
Promovido a pinico
Os desonesto dentro
E os honesto de fora
Quem trafica enrica
E o justo na tora
No capitalismo
Quem tem água nos olhos
Quando vai no enterro
Se não lhe pagar não chora
Chora se não tiver
Dinheiro vivo em dólar
Chora pra quem morreu
Se lhe pagarem na hora
Olha o cidadão no mundo
No mundo ninguém tá só
Vida de quem tá no mundo
É viver desatando nó
Olhe o nó na madeira
A mentira é um nó
Quem dá nó em goteira
Amarra a sombra com cipó
Nasceu com a mãe na zona...
Juraildes da Cruz
Na Quadrada das Águas Perdidas
Da Vaca Seca, Sete Varge inda p'ra lá
Muito mais, inda mais, muito mais
Dispois dos derradêro cantão do sertão
Lá na quadrada das águas perdida
Reis, Mãe-Senhora
Beleza isquicida
Bens, a lagoa arriscosa função
Ô Caindo chiquera as cabra mais cedo
Aparta Lubião, esse bode malvado, travanca o
Chiquêro
Ti avia a cuidar
Alas qui as polda di sheda rincharo ao luar
Na madrugada suadas de medo pr'a lá
Runcas levando acesas candeia inclusão
Da Carantonha mili légua a caminhá
Mil badaronha tem qui tê pr'a chegá lá
Sete jinela sete sala um casarão
Laço dos Moura
Varge dos trumento
Velhos Domingos
Casa das Sarmentos
Moças, sinhoras
Mitriosa função
Dá pressa in guilora a ingomá nossos terno
Albarda as jumenta cum as capa de inverno
Cuida as ferramenta num dexa ela vê
Si não pode ela num anuí nois í
Onte pr'os norte de Mina o relampo raiô
Mucadim a mãe do ri as águas já tomô
Anda muntemo o mondengo pr's nois i pr'a lá
Elomar Figueira Melo
Os teus pés
Contemplo os teus pés.
Teus pés de osso arqueado,
Teus pequenos pés duros,
Eu sei que te sustentam
E que teu doce peso
Sobre eles se ergue.
Tua cintura e teus seios,
A duplicada purpura
Dos teus mamilos,
A caixa dos teus olhos
Que há pouco levantaram voo,
A larga boca de fruta,
Tua rubra cabeleira,
Pequena torre minha.
Mas se amo os teus pés
É só porque andaram
Sobre a terra e sobre
O vento e sobre a água,
Até me encontrarem.
Pablo Neruda
terça-feira, 17 de março de 2009
Mestre Poeta

Eu sou um fruto
Cultivado no nordeste
Me torno cabra da peste
Com quem taxa o meu sertão
Terra mais linda
Eu ainda num conheço
Neste solo enriqueço
Como é bela a floração
Na terra santa
O que se planta aqui se cria
É o milagre a invernia
Misturado com o verão
Mestre poeta
Se tornou um dicionário
E mandou mudar o cenário
E a bandeira do sertão
Cenário este
Que agora não se muda
Minha gente não se iluda
Não há seca no sertão.
Galdencio
segunda-feira, 16 de março de 2009
Sarau no Abaeté celebra as águas
O cantador Maviael Melo comanda a noite e recebe convidados
É ao lado da decantada lagoa, no Parque Metropolitano do Abaeté, que a edição desta segunda-feira, 16, do Sarau de Itapuã celebra as águas e chama a atenção para um dos mais famosos cartões-postais da cidade.
No espaço Casa da Música, a partir das 18 horas, o cantador Maviael Melo faz as vezes de anfitrião e recebe convidados e “quem mais quiser subir ao palco para declamar uma poesia”, como propõe ele.
A espontaneidade e a descontração devem realmente tomar conta da noite. Além de cantar, João Sereno (e Banda Somgon), Cláudia Cunha, Helvécio Santana e Catarina Gonzaga conversam um pouco sobre o tema, que é um tanto amplo. “É global. Terra é água, corpo é água. Cada um pode falar um pouco da sua relação”, convida Maviael, que vai desfiar cantorias e cordéis.
A programação apresenta a exposição de fotos sobre águas, inaugurada terça-feira. O sarau – que chega à 42ª versão, mas a primeira a unir arte e educação ambiental – encerra a programação de uma semana com palestras, visitas, performances e oficinas.
Alguns resultados serão apresentados à tarde, antes do evento. Tudo com entrada franca. “Queremos só o sorriso como entrada, a alegria de estar presente”, cobra o anfitrião.
Serviço:Sarau de Itapuã Com Maviael Melo e convidados Segunda, 16, às 18h, Casa da Música (3116-1511) Parque Metropolitano do Abaeté, s/nº, Itapuã Entrada franca.
[Fonte] www.atarde.com.br/cultura/noticia.jsf?id=1097350
sexta-feira, 13 de março de 2009
Eu não existo sem você
Já que a vida quis assim
Que nada nesse mundo
levará você de mim
Eu sei e você sabe
Que a saudade não existe
E todo grande amor
Só é grande se for triste
Por isso, meu amor,
Não tenho medo de sofrer
Que todos os caminhos
Me encaminham para você
Assim como o oceano
Só é belo com o luar
Assim como a canção
Só tem razão de se cantar
Assim como uma nuvem
Só acontece se chover
Assim como o poeta
Só é grande se sofrer
Assim como viver sem ter amor
Não é viver
Não há você sem mim
E eu não existo sem você!
quinta-feira, 12 de março de 2009
Aquele
que faz o real ser devaneio
fazendo a viela virar praça
Na raça, viva...
Com o êxtase de permeio,
Sentindo-a coração e seio
Ao inferno quem lhe perde a graça
Viva a nossa desgraça,
quando assim chega ao fim
quando a dor já é sem mim
machucando outra devassa
Pois, se me deixou a dor sobrou
e só o sei que ao fim chegou
Quando não mais sinto amargor
No vinho que tomo da taça
Pois bem, é o fim.
quarta-feira, 11 de março de 2009
Cabra Cega
Um incêndio na floresta no meio da escuridão
Pra você que mal enxerga
Uma estrela, um vaga-lume numa noite de verão
Pra você que mal enxerga
Uma nave extraterrena vai ser sempre um avião
Um satélite perdido, um delírio coletivo
Um balão de São João
Por isso chega mais pra perto, cabra cega
E pega na minha mão
Tira a venda, enxerga
Abre a janela e os olhos do coração.
Sérgio Sampaio e Sergio Natureza
A Excomunhão da Vítima
Que me dê inspiração,
Ciência e sabedoria,
Inteligência e razão,
Peço que Deus que me proteja
Para falar de uma igreja
Que comete aberração.
II
Pelas fogueiras que arderam
No tempo da Inquisição,
Pelas mulheres queimadas
Sem apelo ou compaixão,
Pensava que o Vaticano
Tinha mudado de plano,
Abolido a excomunhão.
III
Mas o bispo Dom José,
Um homem conservador,
Tratou com impiedade
A vítima de um estuprador,
Massacrada e abusada,
Sofrida e violentada,
Sem futuro e sem amor.
IV
Depois que houve o estupro,
A menina engravidou.
Ela só tem nove anos,
A Justiça autorizou
Que a criança abortasse
Antes que a vida brotasse
Um fruto do desamor.
V
O aborto, já previsto
Na nossa legislação,
Teve o apoio declarado
Do ministro Temporão,
Que é médico bom e zeloso,
E mostrou ser corajoso
Ao enfrentar a questão.
VI
Além de excomungar
O ministro Temporão,
Dom José excomungou
Da menina, sem razão,
A mãe, a vó e a tia
E se brincar puniria
Até a quarta geração.
VII
É esquisito que a igreja,
Que tanto prega o perdão,
Resolva excomungar médicos
Que cumpriram sua missão
E num beco sem saída
Livraram uma pobre vida
Do fel da desilusão.
VIII
Mas o mundo está virado
E cheio de desatinos:
Missa virou presepada,
Tem dança até do pepino,
Padre que usa bermuda,
Deixando mulher buchuda
E bolindo com os meninos.
IX
Milhões morrendo de Aids:
É grande a devastação,
Mas a igreja acha bom
Furunfar sem proteção
E o padre prega na missa
Que camisinha na lingüiça
É uma coisa do Cão.
X
E esta quem me contou
Foi Lima do Camarão:
Dom José excomungou
A equipe de plantão,
A família da menina
E o ministro Temporão,
Mas para o estuprador,
Que por certo perdoou,
O arcebispo reservou
A vaga de sacristão.
Reboliço
Cada passo é retrocesso
Cada troço o que que é isso
É ouriço no espaço
É caroço e bagaço
Já nem sei o que que é isso
Já nem sei o que que é nosso
E o futuro é chouriço
Vou quebrar esse compasso
Pra fazer um reboliço
Nessa rima 'ocê tropeça
Um verso torto de cachaça
O caçador virando caça
E você entrando nessa
Vou quebrar esse compasso
Que ainda sou de carne e osso
E até o Pai Vosso
Vai voltar a ser Pai Nosso
Quando quem está de bruço
Fizer isso ficar ruço.
Cássio Tucunduva / João Luiz Magalhães
segunda-feira, 9 de março de 2009
Precisando de Amor
Lua cheia
Se apaixonou, se apaixonou, se apaixonou
E nem beijou na boca... hum
Quase pirou
Se excitou
E nem ligou
Que tava de batom vermelho
Combinando com o seu beijo
Olha só, meu amor, não vá embora
Adoro o teu jeito e o teu cheiro
Quando eu te encontrei
Não achei graça, não vi nada
Não sei onde eu estava
Só reparei que estava meio zangada
Tava precisando de amor
Tava precisando de amar
Mudou, mudou, mudou, mudou, mudou, mudou
Ficou mais assanhada
Agradou, agradou...
Seu brinco e sua minissaia
Olha só meu amor, por favor
Não vou te falar mais nada
Mas você tá precisando
De namorar
Ou dar uma namorada...
Tá precisando de amor
Tá precisando de amar
Peu Meurray
Não aguento mais
Eu saí da Paraiba,
Minha terra tão brejeira,
Pra fazer publicidade
Na Veneza Brasileira
Onde a comunicação
É toda em lingua estrangeira.
É uma ingrizia só
O jeito de se falar,
O que a gente não compreende,
Passa o tempo a perguntar
E assim como é que eu vou
Poder me comunicar ?
É bastante abrir-se a boca
O “inglês” fala no centro,
Nessa Torre de Babel
Eu morro e não me concentro…
Até parece que estamos
De Nova Iorque pra dentro!
Lá naquele fim de mundo
Esse negócio tem vez
Porque quem vive por lá
O jeito é falar inglês,
Mas, se estamos no Brasil
O jeito é falar Português!
Por que complicar a guerra
Em vez de se esclarecer?
E se “folder” é um folheto
Por que assim não dizer?…
Pois quem me pedir um “folder”
Eu vou mandar se folder.
Roteiro é “story board”
Nesse vai e vem estrangeiro,
Parece até palavrão
Que se evita o tempo inteiro….
Porque seus filhos das putas,
A gente não diz roteiro ?
Estão todos precisando
Dos cuidados do Pinel
Será feia a nossa lingua?
É chato nosso papel?
Por que esse tal de “out door”
Substituir painel ?
É desrespeito à memória
De Camões que foi purista
E esse massacre ao vernáculo
Não aguenta o repentista
Pois chamam “lay out-man”
O homen que é desenhista!
Matuto da Paraiba,
Aqui juro que não fico,
Onde até se tem vergonha
De um idioma tão rico…..
Por que se chamar de “free-lancer”
Um sujeito que faz bico?
Publicidade de rádio
Apedlidaram de “spot”
E tem outras besteiradas
Que não cabem num pacote.
Acho que acabou o tempo
De acabar esse fricote!
Por exemplo: “body type”
“Midia”,”top”, “merchandising”,
“Checking list”, “past up”
(Que se diga de passagem)
“Briffing”, “Top de Marketing”,
Tudo isso é viadagem!
Já é hora de parar
com esse festival grosso
Para que o nosso idioma
Saia do fundo do poço.
Para isso eu faço esse “raff”,
Isto é –perdão ! – esboço!
Orlando Tejo
quinta-feira, 5 de março de 2009
Violão
Vai tocar as cordas
De uma canção
Violão pau e cordas
O silêncio apavora
Os acordes do meu coração
Um dó que sai em mi
Corta os acordes da alma
De um violão sem tocador.
Violão meu cavaquinho
Um Bandolim um choro
Sete cordas, pandeiro
Banjo e a emoção
Violão quão sonoro
É teu nome
Exige dos dedos harmonia
Para uma poesia compor
Príncipe dos Instrumentos
Tem forma feminina
De cristalinos tons.
Violão desde menino
Gosto de ouvir o teu som
Violão, violão!
Numa noite sem lua
E de ti que vem o clarão.
Quanto seu pescoço aperto
Gera bonitas canções.
Gildemar Sena
O Príncipe Negro
Oculto por trás da escrita
Na voz calada que grita
O verbo que descortina
A vil linguagem ferina,
De um sagaz poeta impuro,
Que vem de um reino obscuro
Faminto de pão abstrato.
Vê que não porto contrato
Só os versos que mensuro.
Sou o vate palinuro
Desta era mau-propícia,
Libertário de uma milícia
Que marcha sobre o monturo;
O prenuncio de um futuro
De caos interplanetário.
Testador do inventário
Inoficioso de um espúrio,
Porta-voz de um lamurio
Do qual sou signatário.
Principia-se o calvário
De uma espécie inumana
Que se julga soberana
Neste vasto balneário.
Hoje um póstumo templário
Cavalga com seu corcel
Sobre o caos de Babel
Prometendo à mortalha
Uma sangrenta batalha
Contra este mundo infiel.
Ecoa o som de um tropel
Propagando aos quatro ventos
Que a chegada dos tormentos
Vem de varejo a granel.
Uma absinto de fel
Pra boca que agora teme
O licor que arde e freme
No antigo cálice da ira;
Vem com desprezo na lira
Deste poeta que geme.
Por mais que este mundo reme
Pra vencer a correnteza
Há de provar a frieza
Deste insubmisso leme.
Hoje o mar bramindo treme
E se lança sobre a terra.
Ciclones trarão a guerra
Disparando vendavais,
Tufões quebraram seus cais
Junto à criança que berra.
Treme a espinha da serra
Mais que em tempos remotos
Tragando em seus terremotos
Mansões que nela se emperra.
Abriu-se a garganta da terra
Pra devorar seus castelos
E reduzir a farelos
Esta inútil geração
Mais faminta que um leão
Em tempos secos, magrelos.
O céu de asseios e anelos
Se fecha na estratosfera
E o hálito quente da fera
Multiplicam seus flagelos.
Campos que já foram belos
Secos nos causam pavor
Exalando um mau odor
Pelos seus tão pesados.
Já não se ver orvalhados
Os vales da Linda Flor.
Agora não há Senhor
Que salve sua criação;
Imperando a lei do cão
Seu pão é a fome e o ardor.
Um rio de fel e amargor
Deságua com fúria total
O bem deu guarita pro mal,
Jaz na cova a caridade,
Eis que se curva cidade
Pro aquecimento global.
Quero nesta matinal
O sol queimando a colina
Teus filhos pedindo morfina
Teu gado seco no curral
Que seja o seu torrão natal
Pra sempre estéril, infecundo
Seu leito de rio imundo
A videira sem um grão
Que a irmã degole o irmão
Neste próximo segundo.
Que o sentimento mais profundo
Seja só ódio e rancor
Que o pai prove o dissabor
Preso em um poço fundo.
Que a mãe gere o vagabundo
Que há de lhe amortalhar.
Que seja o planeta um lugar
De pranto, de dor e lamento
Imundo, fedido e nojento
Pra que eu possa me alegrar.
Seu Ribeiro
Gritos da Terra
É noite
já vem lua cheia
e o clarão clareia
tantos laranjais
transporto a tropa do destino
e lá se vem lavínio
pelos milharais
Debulhando a vida
mostrando as feridas
das lutas intensas
porém bem sofridas
cadê a terra que não conseguimos
plantar esperança, seguir meu destino
de lavrador
Chega pra somar meu povo
lutemos por um dia novo
quem sabe a nova aurora
está pra nascer
pra todos.
Pedro Sampaio
É isso aí!
É o sangue e a sangria,
a tristeza e a alegria,
a noite, quando acaba o dia
enfeitando outro penar
É o grito em seu olhar
me pedindo outra chance
é o alcance do amor
quando quer desatinar
É a volta dos que não foram,
a ida dos que nunca estiveram,
dos céticos o novarum rerum
do romântico o deliciar
É o quarto mago dos reis
na tarde em dia de marte
É o mulambo em estandarte
protegendo sua Euterpe
É a verve quando ferve,
o laço quando desenlaça,
o caçador no dia da caça,
o passado no seu porvir!
Tudo isso é isso aqui,
Eu e você.
Ruy Penalva e Victor Fidel
Aos 100 - Patativa do Assaré
Patativa do Assaré se vivo, hoje faria 100 anos.
O Sabiá e o Gavião
Eu nunca falei à toa.
Sou um cabôco rocêro,
Que sempre das coisa boa
Eu tive um certo tempero.
Não falo mal de ninguém,
Mas vejo que o mundo tem
Gente que não sabe amá,
Não sabe fazê carinho,
Não qué bem a passarinho,
Não gosta dos animá.
Já eu sou bem deferente.
A coisa mió que eu acho
É num dia munto quente
Eu i me sentá debaxo
De um copado juazêro,
Prá escutá prazentêro
Os passarinho cantá,
Pois aquela poesia
Tem a mesma melodia
Dos anjo celestiá.
Não há frauta nem piston
Das banda rica e granfina
Pra sê sonoroso e bom
Como o galo de campina,
Quando começa a cantá
Com sua voz naturá,
Onde a inocença se incerra,
Cantando na mesma hora
Que aparece a linda orora
Bejando o rosto da terra.
O sofreu e a patativa
Com o canaro e o campina
Tem canto que me cativa,
Tem musga que me domina,
E inda mais o sabiá,
Que tem premêro lugá,
É o chefe dos serestêro,
Passo nenhum lhe condena,
Ele é dos musgo da pena
O maiô do mundo intêro.
Eu escuto aquilo tudo,
Com grande amô, com carinho,
Mas, às vez, fico sisudo,
Pruquê cronta os passarinho
Tern o gavião maldito,
Que, além de munto esquisito,
Como iguá eu nunca vi,
Esse monstro miserave
É o assarsino das ave
Que canta pra gente uví.
Muntas vez, jogando o bote,
Mais pió de que a serpente,
Leva dos ninho os fiote
Tão lindo e tão inocente.
Eu comparo o gavião
Com esses farão cristão
Do instinto crué e feio,
Que sem ligá gente pobre
Quê fazê papé de nobre
Chupando o suó alêio.
As Escritura não diz,
Mas diz o coração meu:
Deus, o maió dos juiz,
No dia que resorveu
A fazê o sabiá
Do mió materiá
Que havia inriba do chão,
O Diabo, munto inxerido,
Lá num cantinho, escondido,
Também fez o gavião.
De todos que se conhece
Aquele é o passo mais ruim
É tanto que, se eu pudesse,
Já tinha lhe dado fim.
Aquele bicho devia
Vivê preso, noite e dia,
No mais escuro xadrez.
Já que tô de mão na massa,
Vou contá a grande arruaça
Que um gavião já me fez.
Quando eu era pequenino,
Saí um dia a vagá
Pelos mato sem destino,
Cheio de vida a iscutá
A mais subrime beleza
Das musga da natureza
E bem no pé de um serrote
Achei num pé de juá
Um ninho de sabiá
Com dois mimoso fiote.
Eu senti grande alegria,
Vendo os fíote bonito.
Pra mim eles parecia
Dois anjinho do Infinito.
Eu falo sero, não minto.
Achando que aqueles pinto
Era santo, era divino,
Fiz do juazêro igreja
E bejei, como quem bêja
Dois Santo Antõi pequenino.
Eu fiquei tão prazentêro
Que me esqueci de armoçá,
Passei quage o dia intêro
Naquele pé de juá.
Pois quem ama os passarinho,
No dia que incronta um ninho,
Somente nele magina.
Tão grande a demora foi,
Que mamãe (Deus lhe perdoi)
Foi comigo à disciprina.
Meia légua, mais ou meno,
Se medisse, eu sei que dava,
Dali, daquele terreno
Pra paioça onde eu morava.
Porém, eu não tinha medo,
Ia lá sempre em segredo,
Sempre. iscondido, sozinho,
Temendo que argúm minino,
Desses perverso e malino
Mexesse nos passarinho.
Eu mesmo não sei dizê
O quanto eu tava contente
Não me cansava de vê
Aqueles dois inocente.
Quanto mais dia passava,
Mais bonito eles ficava,
Mais maió e mais sabido,
Pois não tava mais pelado,
Os seus corpinho rosado
Já tava tudo vestido.
Mas, tudo na vida passa.
Amanheceu certo dia
O mundo todo sem graça,
Sem graça e sem poesia.
Quarqué pessoa que visse
E um momento refritisse
Nessa sombra de tristeza,
Dava pra ficá pensando
Que arguém tava malinando
Nas coisa da Natureza.
Na copa dos arvoredo,
Passarinho não cantava.
Naquele dia, bem cedo,
Somente a coã mandava
Sua cantiga medonha.
A menhã tava tristonha
Como casa de viúva,
Sem prazê, sem alegria
E de quando em vez, caía
Um sereninho de chuva.
Eu oiava pensativo
Para o lado do Nascente
E não sei por quá motivo
O só nasceu diferente,
Parece que arrependido,
Detrás das nuve, escondido.
E como o cabra zanôio,
Botava bem treiçoêro,
Por detrás dos nevoêro,
Só um pedaço do ôio.
Uns nevoêro cinzento
Ia no espaço correndo.
Tudo naquele momento
Eu oiava e tava vendo,
Sem alegria e sem jeito,
Mas, porém, eu sastifeito,
Sem com nada me importá,
Saí correndo, aos pinote,
E fui repará os fiote
No ninho do sabiá.
Cheguei com munto carinho,
Mas, meu Deus! que grande agôro!
Os dois véio passarinho
Cantava num som de choro.
Uvindo aquele grogeio,
Logo no meu corpo veio
Certo chamego de frio
E subindo bem ligêro
Pr’as gaia do juazêro,
Achei o ninho vazio.
Quage que eu dava um desmaio,
Naquele pé de juá
E lá da ponta de um gaio,
Os dois véio sabiá
Mostrava no triste canto
Uma mistura de pranto,
Num tom penoso e funéro,
Parecendo mãe e pai,
Na hora que o fio vai
Se interrá no cimitéro.
Assistindo àquela cena,
Eu juro pelo Evangéio
Como solucei com pena
Dos dois passarinho véio
E ajudando aquelas ave,
Nesse ato desagradave,
Chorei fora do comum:
Tão grande desgosto tive,
Que o meu coração sensive
Omentou seus baticum.
Os dois passarinho amado
Tivero sorte infeliz,
Pois o gavião marvado
Chegou lá, fez o que quis.
Os dois fiote tragou,
O ninho desmantelou
E lá pras banda do céu,
Depois de devorá tudo,
Sortava o seu grito agudo
Aquele assassino incréu.
E eu com o maiô respeito
E com a suspiração perra,
As mão posta sobre o peito
E os dois juêio na terra,
Com uma dó que consome,
Pedi logo em santo nome
Do nosso Deus Verdadêro,
Que tudo ajuda e castiga:
Espingarda te preciga,
Gavião arruacêro!
Sei que o povo da cidade
Uma idéia inda não fez
Do amô e da caridade
De um coração camponês.
Eu sinto um desgosto imenso
Todo momento que penso
No que fez o gavião.
E em tudo o que mais me espanta
É que era Semana Santa!
Sexta-fêra da Paixão!
Com triste rescordação
Fico pra morrê de pena,
Pensando na ingratidão
Naquela menhã serena
Daquele dia azalado,
Quando eu saí animado
E andei bem meia légua
Pra bejá meus passarinho
E incrontei vazio o ninho!
Gavião fí duma égua!
Patativa do Assaré
quarta-feira, 4 de março de 2009
Angra
Barcos submersos, rochas de atalaia.
Redes agonizam pelo chão da praia,
Lemes submissos, dia que não raia azul.
Nuvens de ameaça, lua prisioneira.
Águas assassinas, chuva carpideira.
Volta ao porto o corpo morto
De outro moço:
Cruz de carne e osso
Que tentou fugir no mar.
Asas invisíveis sobre o meu silêncio
Facas dirigidas contra o que eu não tento,
E hoje o mar de Angra
Sangra dos meus olhos
Precipício aberto
De onde me arrebento.
João Bosco & Aldir Blanc
Medo
Que eu quero me consultar
Deixe então que eu te fale
Embora queiram que eu me cale
Gostaria de falar
Das coisas que estou sentindo
Tá tão lento o meu andar
Estou sentindo umas tonturas
Na hora de viajar
Por favor quero franqueza
E o meu pulso em correnteza
Seu doutor como é que tá?
Tenha calma meu amigo
Meu querido cidadão
Vou fazer sua consulta
Mais antes a inscrição
De onde vem, para onde vai
Me diga quem é se pai
Por que choras, ancião?
Sou filho da natureza
É de lá que são meus pais
Sou mineiro, seu doutor
E venho das Minas Gerais
Por adoção eu sou baiano
Pernambucano, sergipano,
Alagoano,
E meu sonho é ver o Mar
Que não quer chegar....
Cadê o mar doutor
Onde é que está o mar
Que o mar não quer chegar?
O mar não chega mais...
Seu doutor nessa viagem
Trabalhei na construção
Visitei muitas lavouras
Agüei a plantação
Encontrei muitos amigos
Mais também com inimigos
Que matam sem compaixão
Seu doutor da natureza
Quero me apresentar
O meu nome é FRANCISCO
VELHO CHICO pode me chamar
Estou sentindo um grande tédio
Por favor quero um remédio
Com medo de não chegar
Cadê o mar doutor,
Onde é que o mar está
Que o mar não quer chegar?
O mar não chega mais...
Seu doutor da natureza
Não me faça operação
Não transponha minhas veias
Não me mate o coração
Que eu quero ver o mar...
Wilson Duarte
terça-feira, 3 de março de 2009
Retinas
E num mergulho penetrasse
Através dessas retinas
Através dessas meninas
Dos teus olhos colibris
Tão flutuantes fluentes
Tão cantantes tão contentes
Meninas tão... meninas tão bem...
Meninas tão bem-te-vis
Esse travor de fogo e sol
E cantaria o rouxinol
Decantaria juritis
Galo de campina
Sabiá, xexéu, rolinha
Grava tua voz na minha
Canta o fogo se apagou
Que no Sertão do meu penar
Brotaram mágoas
Que o meu pranto hoje deságua
Na cacimba que secou.
Maciel Melo / Virgílio Siqueira
segunda-feira, 2 de março de 2009
Nada-r
Fazer um poema quando já morto,
para escrever o nada.
Nada olhar,
nada pensar,
nada fazer,
nada dizer,
Nada...
Nada mesmo,
até morrer afogado de "nada-r".
Victor Fidel
Eu fiz de tudo
Pra você perceber
O presente
Tudo, Tudo, Tudo.
O presente
Que você não vê
O presente
Longe de você.
Eu fiz de tudo
Pra abrir os olhos
Quando era sorriso
Eu fiz de tudo
Pra você receber
Quando era preciso
Fazer.
Mesmo quando se quer
O que é pra receber
Eu fiz de tudo
Pra esquecer o futuro
Tudo, Tudo, Tudo.
Manuca Almeida
O Nome do mistério
que agora é tarde
e o nosso amor é outro,
que o nosso tempo agora
é o fim de tudo
e só nos resta alguns papéis
para rasgar
Eu poderia dizer
que agora é tarde
que o nosso tempo é outro
que o nosso amor agora
é o fim do mundo
e não nos sobra nada a mais
para esperar
mas eu não digo
sobre o mistério atrás de tudo isso
sobre o segredo meu amor, que eu guardo
e que você vai ter que descobrir
Eu poderia dizer, mas eu não digo
o nome do mistério
o nome disso, e vou por mim aqui
silencifrado, de volta ao ar
querendo ir
Eu podeira dizer, mas eu não digo.
Cores e tons
Pinta a cor
Do pensamento do poeta
Pinta as linhas do verso
Tinge a métrica
Desenha sua canção
E os acordes de um violão
Pelos dedos da mão
Se transformam em aquarela
Pinta pra ele ou pra ela
Com a tinta da emoção
Quando canta todo cantador
Seu pinho é seu cavalete
E do seu amigo velho e alto tamborete
Vê uma paisagem bem precisa
Decantando a Monalisa
Faz um quadro, entoa um rosto
Sinfoniando o sol posto
Traz a tela para os dedos
Sonorizando segredos
Canta o gosto e o desgosto
Quando se pinta ou se canta
Quando se escreve ou se fala
Quando se escuta ou se cala
Pode estar se pintando um mundo
Emoldurando o ser
Com as cores do bem viver
Nas telas do bem amar.
Maciel Melo
Purpurina
Se você pensa que vai me arrepiar
Pode ser, mas eu sou feito purpurina
Se uma luz não ilumina
Não há jeito de brilhar
Se você só chega por chegar
Nem uma lanterna no olhar
Nosso show não pode acontecer
Sem o palco se acender
Eu não vou representar
Se você pensa que vai me seduzir
Se você pensa que vai me arrepiar
Pode ser, pois eu sou feito bailarina
Se a ribalta se ilumina
Fico roxa pra dançar.
Jerônimo Jardim





































