sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

SÉRGIO SAMPAIO - Homengem ao eterno metafórico


Quando Sergio Sampaio saiu de Cachoeiro do Itapemirim, ele queria conquistar o mundo. Mas acabou não estando preparado para isso. Sergio era locutor de radio na sua cidade natal, a mesma cidade natal de Roberto Carlos, seu pai Raul Sampaio, maestro da banda de música da cidade, e quem compôs “Cala a boca, Zébedeu”, cantada pelo filho anos mais tarde.

Foi na rádio de Cachoeiro de Itapemirim que Sergio aprofundou seus conhecimentos musicais. Porém foi no rio de Janeiro, após passar por muitas dificuldades como morar na rua e dormir embaixo de marquises, Sergio foi convidado para acompanhar um amigo ao violão, durante um teste na gravadora CBS. Foi atendido por um tal de Raul dos Santos Seixas, que então era produtor da gravadora. Depois que Odibar, o amigo de Sampaio, cantou suas canções, Raulzito não se mostrou muito satisfeito. Sampaio aproveitou para emendar uma de suas músicas, Raulzito gostou e pediu para ouvir mais uma, e ouviu “Côco verde”. Sampaio desfilou uma série de canções de seu próprio repertório. Quando saíram da gravadora, Sampaio e Odibar, Raulzito cochichou ao pé do ouvido de Sampaio, “volte amanhã”.

Nasceu uma amizade que chegou até influenciar a carreira do próprio produtor musical, que já havia desistido de sua própria carreira. Quando se encontraram no dia seguinte os dois iniciaram uma pareceria musical que rendeu inúmeros sucessos. Sampaio foi convidado a virar compositor da gravadora, e compôs musicas interpretadas pelo Trio Ternura, José Roberto, Renato & seus Blue Caps e Tony & Frankie. Raul também produziu o primeiro compacto de Sergio Sampaio em 1971, com as músicas “Côco verde” e “Ana Juan”.

Raul também produziu um disco para Leno em 1971, antigo parceiro de Lílian na dupla Leno & Lílian que cantavam “Pobre menina” na primeira fase da Jovem Guarda. O disco “Vida e obra de Johnny McCartney” foi mutilado pela censura e arquivado pela gravadora CBS. Porém, Raul Seixas viu na parceria com Sergio Sampaio uma boa oportunidade de aprofundar seu projeto musical de compor um disco conceitual mais ousado que o disco de Leno. Raul e Sergio gravaram o disco, com participações de Edy Star e Miriam Batucada. Este disco ficou conhecido como "Sociedade da Grã-Ordem Kavernista apresenta Sessão das dez", também de 1971.

Aproveitando a viagem do diretor da gravadora, Evandro Ribeiro, Raul Seixas lançou o LP, e quando Ribeiro retornou, teve que recolher os discos das lojas e meter um cabresto no seu produtor musical. Raul ainda produziu o segundo compacto para Sampaio em 1972, com as músicas “Classificados nº 1” e “Não adianta”.

Raul foi para a gravadora Phillips e levou Sampaio junto. Foi para a gravadora Phillips, que Sampaio gravou seu maior sucesso, A canção “Eu quero é botar meu bloco na rua”. A canção foi um sucesso e tocou a exaustão nas rádios. A gravadora encomendou um LP, produzido por Raul Seixas. A Phillips queria outro sucesso como o primeiro, mas Sampaio gravou um disco cheio de músicas com letras complicadas e difíceis.

O primeiro sucesso assustou Sampaio que se tornou arredio e paranóico. Após um compacto em 1974, com as músicas “Meu pobre blues” e “Foi ela”, Sampaio se desligou da gravadora Phillips e se afastou do show business. Em 1975, Sampaio gravou um compacto para a gravadora Continental, com as músicas “Velho bandido” e “O teto da minha casa”. No ano seguinte lançou o segundo LP, “Tem que acontecer”. O disco foi um relativo sucesso, mas o cantor não participou da divulgação, o que prejudicou as vendas. Em 1977, Sampaio gravou seu último compacto pela Continental, com as músicas “Ninguém vive por mim” e “História de um boêmio (Um abraço no Nelson Gonçalves)”.

Sampaio ficaria anos afastado, sempre com crises de tuberculose e outros problemas de saúde, acarretados pela sua boemia. Em 1983, Sampaio lançou o terceiro LP “Sinceramente” por um selo independente Gravina, mas o LP passou despercebido no meio da febre new wave da música popular brasileira.

Sampaio ficou no ostracismo, relegado apenas ao circuito universitário e de pequenos bares e boates. Em 1983 após participar de um show com Raul Seixas em Salvador, Sampaio recebeu convite para gravar um novo disco pelo selo Baratos Afins. Chegou a gravar o repertório numa gravação caseira, mas em 1994, faleceu no Hospital IV Centenário de Santa Tereza no Rio de Janeiro, após uma crise de pancreatite crônica.

Sergio Natureza, amigo intimo de Sampaio, organizou o disco de tributo “O balaio do Sampaio” com vários artistas, entre eles Eduardo Duzek, Chico César, Lenine e Zeca Baleiro. Foi Baleiro quem assumiu a responsabilidade de produzir a fita de material inédito de Sergio Sampaio. Este disco foi finalmente lançado em 2006 com o título “Cruel”.

Existe ainda um disco do Sergio Sampaio lançado apenas na Internet com o título de “Disco inédito” ou “Cru”. Este disco tem todas as músicas do lançamento de 2006 e outras duas inéditas como “Destino trabalhador” e “Chuva fina”. Existe ainda uma gravação ao vivo de Sampaio com a música “Menino João”, esta gravação esta incluída neste “Disco Inédito”.

Serenata



Íbamos a vivir toda la vida juntos.
Íbamos a morir toda la muerte juntos.
Adiós.

No sé si sabes lo que quiere decir adiós.
Adiós quiere decir ya no mirarse nunca,
vivir entre otras gentes,
reírse de otras cosas,
morirse de otras penas.
Adiós es separarse, ¿entiendes?, separarse,
olvidando, como traje inútil, la juventud.

!Íbamos a hacer tantas cosas juntos!
Ahora tenemos otras citas.
Estrellas diferentes nos alumbran en noches diferentes.
La lluvia que te moja me deja seco a mí.
Está bien: adiós.
Contra el viento el poeta nada puede.

A la hora en que parten los adioses,
el poeta sólo puede pedirle a las golondrinas
que vuelen sin cesar sobre tu sueño.

[Fuente] 

Miguel Scorza

Aonde ando



Na beira do rio
vendo o rio morrer
numa morte lenta
que posso dizer
ando pela mata
para ver a fonte
vejo que as árvores
já se forram aos monte

Se é passarinho
vejo na gaiola
num lamento triste
sem poder ir embora
ando pelas ruas
observo a fome
tudo isso
culpa do homem
culpa do político
que é um sacana
do artista mercenário
que só quer a grana

Na igreja nada é diferente
tem pastor escroto
enlouquecendo gente
vivendo as custas
da miséria alheia
só posso dizer a você
que no momento de agora
aonde vou vejo dor
aonde vou o amor chora

Vejo tempestade de vento
aonde o vento só vinha
em forma de brisa mansinha
tudo isso é reflexo
da ambição desvairada
dos que não acreditam na vida
do que só acreditam no nada.

Charlie Augusto

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Mau despertar



Saio do sono como
de uma batalha
travada em
lugar algum

Não sei na madrugada
se estou ferido
se o corpo
tenho
riscado
de hematomas

Zonzo lavo
na pia
os olhos donde
ainda escorre
uns restos de treva.

Ferreira Gullar

Sou quem quer



Sabe o que eu faço de mim?
Ouço minha voz dizer que eu não sou assim,
que eu sou mesmo é do meu jeito
que eu aquilo vendo, me alegro
que eu que sou assim, as vezes não sou
que eu quero mesmo
que eu quando não quero
faço um quero do meu jeito
Eu sou assim.

Victor Fidel

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Urge Dracon



Urge dracon
Ave cesar
Urge dracon
Ave cesar

Magnificus, supremus, augustus
Divinus, superbus, vitalicius
Professor, diktator, imperator
Professor, diktator, imperator
Evoé colofé

Salve o nosso guia
Pro que der e o que vier
Salve o nosso guia
Jorge Mautner

Ou o mundo se brasilifica
Ou vira nazista
Jesus de nazaré
E os tambores do candomblé

Jorge Mautner

Lucas Araújo - Bate-Coxa

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Lúbrica



Mandaste-me dizer,
No teu bilhete ardente,
Que hás-de por mim morrer,
Morrer muito contente.

Lançaste no papel
As mais lascivas frases;
A carta era um painel
De cenas de rapazes!

Ó cálida mulher,
Teus dedos delicados
Traçaram do prazer
Os quadros depravados!

Contudo, um teu olhar
É muito mais fogoso,
Que a febre epistolar
Do teu bilhete ansioso:

Do teu rostinho oval
Os olhos tão nefandos
Traduzem menos mal
Os vícios execrandos.

Teus olhos sensuais
Libidinosa Marta,
Teus olhos dizem mais
Que a tua própria carta.

As grandes comoções
Tu, neles, sempre espelhas;
São lúbricas paixões
As vívidas centelhas...

Teus olhos imorais,
Mulher, que me dissecas,
Teus olhos dizem mais,
Que muitas bibliotecas!

Cesário Verde

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Boi do dono



Morena leva meu abraço
minha dança meu passo
é tudo que eu posso te dar
morena leva o meu beijo
meu carinho meu desejo
meu amor meu maracá

se eu pudesse eu te dava toda riqueza
luxo glória e beleza
remédio pra toda dor
ah eu te dava
os leões do meu palácio
tudo quanto é rima fácil
meu jardim crivado de flor

te dava a minha língua
e o meu coração
se eu fosse dono do mar
se eu fosse dono do maranhão

morena toma este poema
meu canto de siriema
meu doce de buriti
morena minha vida é tua
prometo te dar a lua
se a lua tu me pedir

se eu pudesse eu te dava meu sotaque
rolls-royce cadilac
camafeu e bibelô
ah eu te dava
meu penacho de brincante
brisa da maré vazante
água fresca sombra e calor

te dava a minha língua
e o meu coração
se eu fosse dono do mar
se eu fosse dono do maranhão

Zeca Baleiro

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Destino



Com a razão na mão e a caneta no pé
vou escrevendo meu caminho
com a tinta de um cheiro,
um cheiro meu
pra você me encontrar

E quando vieres,
mulher que ainda não sei,
traz a tua caneta
e escreve comigo
esse destino
que é meu e seu

Victor Fidel

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Sérgio Sampaio - Entrevista

Hoje



Hoje não tem carnaval
meu estandarte se quebrou
no caminho
quando os passáros
foram tirados dos ninhos
para alimentarem
os traficantes de passarinhos

Hoje é melhor sozinho
do que mau acompanhado
você tem que se ligar
com quem tá do lado
um olho no peixe
o outro no gato

Hoje vou olhar a lua
aqui do sertão
e serei então
uma poesia
para minha mãe
A. D. Luzia

Hoje venho transparente
numa imagem de cinema antigo
para ser o pão, debulhar o trigo
nesta imensidão, que é lidar comigo.

Charlie Augusto

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Quando gosto de uma música...

Quando gosto de uma música
é como se aquela música fosse eu
é como se agora que escuto
fosse o ponto de encontro
entre a palavra do poeta
e o papel da minha cabeça
armazenando em mais uma gaveta
a mensagem de um ser
em forma de harmonia.

Victor Fidel

Natureza sonhadora



Mais se de repente
a gente pode ver
uma estrela cadente
nos olhos de alguém
é que alguma coisa há
alguma coisa há além

Alguma coisa que induz o índio
a usar determinada planta
alguma coisa que impede a ave
a migrar para sobreviver
alguma coisa que vem dos seus olhos
pra dentro de mim na hora certa

Explodir outra vez!

Na força do pensamento
lá pelo vão sobrenatural de cada um
na razão do movimento
que atrai correntes diferentes
como eu e tu
natureza sonhadora
a se não for a tua providência
a me guiar a consciência

Accioly Neto

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Cordel da Água - Download


Barata



Com as patas para cima,
a barata feminina
sossega, extenuada,
após erótica batalha

com uma barata macha
que de tal jeito abraçou-a
que quase deixou-a sem ar,
toda machucada.

Ela suspira e relaxa
para recompor as forças,
seu acre suor sobressalta,
cheiro de coisa morta.

A barata se mantém deitada,
casca rachada no chão,
aparência podre, exausta,
corpo em decomposição.

Wladimir Cazé

Quem?



Quem me mostrará o caminho?
Os padres com seus idolos de pedra
ou o cego da estação?

Quem guiará minha alma pelo espaço sideral?
Os astronautas com suas roupas pesadas
ou as próprias almas aladas?

Quem gemerá comigo minha dor?
O filho que não pari
ou o amor que nunca esqueci?

Quem me salvará da queda do cavalo?
O vaqueiro com seu gibão de couro
ou uma amazonas com sua tiara de ouro?

Quem irá fechar meus olhos na hora da morte?
Alguém da minha família
ou a mulher que junto comigo saiu da trilha?

Quem irá me socorrer da agonia da solidão?
Alguém que se encontra também sozinho na multidão
ou as lambidas sinceras do meu cão?

Quem irá julgar-me por minhas besteiras?
Um juiz que é a imagem da loucura
ou um anjo que descerá resplandecente das alturas?

Quem matará minha fome de amor?
Os católicos com seus santos e andor
ou um pastor com suas mentiras de falso ator?

Quem irá chamar-me na hora da necessidade?
Os que vivem na vaidade
ou os que tem compromisso com a verdade?

QUEM?

Charlie Augusto

Condomínio fechado



Condomínio fechado
invadido
por cinqüenta e quatro homens armados
encapuzados
que levaram todos os quadros
das salas de estar
de todas as casas
do condomínio fechado
que, por um descuido,
estava aberto....

Zecalu Guimarães

Despedida de Solteira - Gilberto Gil

Nosotros, nosotras



Por muy negro que seas
No es menos hermoso
que nosotros, que nosotros
Asi me habla la paloma
Asi no me hablan los otros

Por muy mundana que seas
No es menos hermosa
que nosotras, que nosotras
Asi me habla la rosa
Asi no me hablan las otras

Por muy pobre que seas
No es menos sabroso
que nosotros, que nosotros
Asi me habla la tierra
Asi no me hablan los otros

Por muy loco que seas
No es menos maravilloso
que nosotros, que nosotros
Asi me habla los pajaros
Asi no me hablan los otros

Por muy obrero que seas
No es menos amoroso
que los negros, que los blancos
Las mundanas, las cristanas
Que los ricos, que los locos
Que nosotras, que nosotros
Asi me habla mi amor

Violeta Parra

Adriana quer comer



Adriana quer comer,
Arnaldo quer cortar o cabelo,
Charlie quer ligar o ar.

E a poesia do mundo
Eu quero
E a palavra
Feita de silêncio
Eu quero.
E quando vem pra mim
Eu lembro dos seus olhos
Tão meus.

O que é normal?
Dudu quer viver,
Daude cantar
Ivan fazer som vivendo.

Olhe o veneno na lata,
Olhe o vento.

Manuca Almeida

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Alguém



Me diga, ó flor!
porque não faço poemas de amor?
Não broto nada além de dor
aos olhos tristes dela?
Me revela porque tem de ser assim.

- O amor transcende palavras
reescreve caminhos, e cada um
tem o seu jeito de amar
cada lar tem um espinho
e cada ninho uma esperança
cada passo uma lembrança
daquilo que um dia
tomou espaço na estrada
do destino de alguém.

Victor Fidel

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Não tenho medo da morte - Gilberto Gil

Um lugar cheio de vazio


Um lugar cheio de vazio
É onde me encontro com ninguém
É quando você some quando vem
É feito achar você quando não tem
Um lugar cheio de vazio.

Victor Fidel

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Trilhas etílicas



Teto-preto que me deu
Quando vi o sol dás 10:00,
Tudo perdeu a cor
Sabia de cor aquela música.

Numa esquina qualquer
Apostando o nada do bolso
Driblando a fome num gole
Seco, débil e farto.

Vestido em trapos atrapalhado
Perambulando solto, dissoluto
Em delírios alcoólicos explícitos
Um poeta bêbado e descalço.

Uma rosa murcha na lapela,
Ainda os olhos de ontem
A cara sem graça no espelho
Querendo ouvir aquela música.

Dai Pinheiro

Ciência do amor



A ciência do amor
consiste na engenharia
de construir a alegria
na ilusão que se alastra,
na caneta que enlaça
com palavras o desejo
calculando mais um beijo
do imã que se abraça

A ciência do amor
traz de fora para dentro
pelo olho um argumento
sem precisar calcular,
resolvendo a equação
graduada em sofrimento
vai tentando a todo momento
de tudo um pouco, transformar...

Victor Fidel

Não adianta



Não adianta,
Não adianta nada ver a banda,
Tocando a“A Banda” em frente da varanda,
Não adianta o mar,
E nem a sua dor.

Não adianta,
Não adianta o bonde, a esperança,
E nem voltar um dia a ser criança,
O sonho acabou,
E o que adiantou?

Não tenho pressa,
Mas tenho um preço,
E todos tem um preço,
E tenho um canto,
Um velho endereço,
O resto é com vocês,
O resto não tem vez.

O que importa,
É que já não me importa, o que importa,
É que ninguém bateu em minha porta,
É que ninguém morreu,
ninguém morreu por mim.

Não quero nada,
Não deixo nada, que não tenho nada,
Só tenho o que me falta e o que me basta,
No mais é ficar só,
Eu quero ficar só.

Não adianta,
Não adianta, que não adianta,
Não é preciso, que não é preciso,
Então pra que chorar?
Então pra que chorar?
Quem está no fogo, está pra se queimar,
Então pra que chorar?

Sérgio Sampaio

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Erro de Português

Quando o português chegou
Debaixo duma bruta chuva
Vestiu o índio
Que pena!Fosse uma manhã de sol
O índio tinha despido
O português

Oswald Andrade

Maviael Melo no Soterópolis