quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Coração, Flor e Espinho



Não se deve aquietar um coração
É preciso ainda mais inquietá-lo
Se preciso com fogo espetá-lo
Pra que ao sengue ele bombe com paixão
E aqueça o calor de cada mão
Que transmite no afago a energia
Construindo a luz de cada dia
Na aurora que acende os teus desejos
Fabricando em saliva os doces beijos
Da Saudade nos versos da poesia

Fervilhando nas vêias é a alegria
Que irriga outro curso a se trilhar
Não se deve ao sonho renegar
Pois é nele que o ato se inicia
Trovadores por damas, em porfia
Soltam versos abrindo os seus caminhos
Outros trilham buscando em pergaminhos
As palavras que formam cada passo
Com cuidado reescrevem traço-a-traço
Separando as Flores dos Espinhos!

Maviael Melo

Lar Hospitalar



Eu que empunho armas feitas de poesia e som
Eu que testemunho dramas da canção fugaz
Eu que experimento o quanto a fantasia é bom
Alimento para a paz

E eu mesmo agora, tenho que lhe ouvir dizer
Aos berros que a vida é pura maldição
Que o mundo é feito só para os eleitos
Que houve sempre fraude na tal da eleição

Portanto, só queimando tudo
Só matando meio mundo
Só pondo a outra metade no poder
Você no comando, sempre vigiando
Pra ninguém se corromper

Finda a banda podre, linda a banda nobre
Sobe a velha rampa e altiva vem reinar
Com imunidades contra o vírus da maldade,
Com certeza, com pureza, com limpeza
Hospitalar, hospitalar, no seu lar hospitalar
Lar, hospitalar

Eu que moro onde o pecado mora ao lado
E me visita sempre no verão
Eu que já fui preso por porte de baseado
É baseado nisso que eu lhe digo não, não, não

Não vou fazer seu coro, seu sermão
A não ser que você possa instalar
O chip da ignorância em minha cuca
A não ser que você consiga me reprogramar
Reprogramar, me reprogramar, reprogramar.

Milton Nascimento / Gilberto Gil

A Obra



Na certeza do mando imediato
Pois cobrado já fui ha uma semana
Esqueci que o tempo não reclama
Mas também sei que não fica parado
Esperando o parceiro anuviado
Pelos cabelos longos do relógio
Que se ri do iminente necrológio
Da poesia que morre sem nascer
É a mil se saber: tempo não corre
Ele anda apenas e nos leva
Para a luz ou pros caminhos das trevas
Isso vai só dos passos depender

É por isso que dou o passo agora
Para o lado de cima da poesia
Pois eu sei, ao unir-se à melodia
Esta então será obra eternizada
Martelada, então pelos labirintos
Pensamentos sonoros, turbilhões
Para enfim, de vez ser aquietada
Nos mais apaixonados corações.

João Sereno

A Poesia não cala / Diante da Ignorância!

O poeta é o arauto
Dessa comunicação
Porque faz do seu bastão
Um caminho sempre lauto
Desaprova o incauto
Contesta a petulância
Desbanca a arrogância
Seu fuzil é sua fala
A Poesia não cala
Diante da ignorância

Mote: Walter Lajes
Glosa: Sander Lee

Desalento



Sim, vai e diz
Diz assim
Que eu chorei
Que eu morri
De arrependimento
Que o meu desalento
Já não tem mais fim
Vai e diz
Diz assim
Como sou
Infeliz
No meu descaminho
Diz que estou sozinho
E sem saber de mim

Diz que eu estive por pouco
Diz a ela que estou louco
Pra perdoar
Que seja lá como for
Por amor
Por favor
É pra ela voltar

Sim, vai e diz
Diz assim
Que eu rodei
Que eu bebi
Que eu caí
Que eu não sei
Que eu só sei
Que cansei, enfim
Dos meus desencontros
Corre e diz a ela
Que eu entrego os pontos

Vinicius de Moraes

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Canción del viaje



Recuerdo un pueblo triste y una noche de frío
y las iluminadas ventanillas de un tren.
Y aquel tren que partía se llevaba algo mío,
ya no recuerdo cuándo, ya no recuerdo quién.

Pero sí que fue un viaje para toda la vida
y que el último gesto, fue un gesto de desdén,
porque dejó olvidado su amor sin despedida
igual que una maleta tirada en el andén.

Y así, mi amor inútil, con su inútil reproche,
se acurrucó en su olvido, que fue inútil también.
Como esos pueblos tristes, donde llueve de noche,
como esos pueblos tristes, donde no para el tren.

José Angel Buesa

Basta Pensar em Sentir



Basta pensar em sentir
Para sentir em pensar.
Meu coração faz sorrir
Meu coração a chorar.
Depois de parar de andar,
Depois de ficar e ir,
Hei de ser quem vai chegar
Para ser quem quer partir.
Viver é não conseguir.

Fernando Pessoa

Agnus Sei



Faces sob o sol, os olhos na cruz
Os heróis do bem prosseguem na brisa da manhã
Vão levar ao reino dos minaretes a paz na ponta dos arietes
A conversão para os infiéis

Para trás ficou a marca da cruz
Na fumaça negra vinda na brisa da manhã
Ah, como é difícil tornar-se herói
Só quem tentou sabe como dói vencer Satã só com orações
Ê andá pa Catarandá que Deus tudo vê
Ê andá pa Catarandá que Deus tudo vê
Ê anda, ê ora, ê manda, ê mata, responderei não!

Dominus dominium juros além
Todos esses anos agnus sei que sou também
Mas ovelha negra me desgarrei, o meu pastor não sabe que eu sei
Da arma oculta na sua mão

Meu profano amor eu prefiro assim
À nudez sem véus diante da Santa-Inquisição
Ah, o tribunal não recordará dos fugitivos de Shangri-Lá
O tempo vence toda a ilusão

João Bosco/Aldir Blanc