quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Não vá embora



Não vá embora, que caiu a chuva agora
Eu já esperei lá fora
Tá fazendo frio!
Eu tenho insônia, quanto mais sozinho, demora
Fico ali pensando horas
Fique um pouco mais

-Não tem problema, que que eu vou dizer
Não tem problema, quanto mais amor
Mais vale a pena outros temas
Os problemas vem e vão
Me dê um beijo amor, me dê a mão

Carlinhos Cor das Águas

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Baile Perfumado



Há, se não fosse um Lambe-Lambe
Pra registrar aquele Baile Perfumado
O que seria de Maria?
Se Lampião não tivesse aceitado

Filmar os Cangaceiros do sertão
Dançando xote de parabelo na mão
E no chapéu de lampeão, Eu vi !
Sete estrelas, sete mares, sete dias

Seu Abrahão não filmou de qualquer jeito
Sua dor no peito foi morrer como uma cria
Chora zabumba na caatinga e acorda o povo
que Bejamin já virou filosofia

E se não fosse o bang-bang
De Cangaceiros no sertão contra as volantes
O que seria de Dadá ?
Sem os seus olhos de Curisco de amantes

Maria Bonita bota logo esse batom
Da cor vermelha pra alegrar essa folia
Que os Cangaceiros tão bebendo numa cuia
Wisk importado e curtindo a cantoria

O sanfoneiro já puxou a pé de bode
Já registrou na fita o cinegrafista
Baião de dois no arraial até as ondens
do Capitão Virgulino, Ave- Maria

Se não fosse um Lambe-Lambe
Pra registrar

Zecrinha

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Ah! Coração



Ah! Se eu pudesse não ter coração...
O coração maltrata tanto
que já nasce me batendo
e minha porta

sensível ao toque da sua mão
enlaça a primeira linha

que a vida vai tecendo

Sinto a dor prolongada
do ardil em seu olhar
dor por dor, além de tudo
bate amor, bate coração
art nouveau de ilusão

Bate, bate, bate
vem amor que eu tô sofrendo
Bate, bate, uma canção
que o meu peito tá doendo

Victor Fidel / Hélio Silvano

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Antelaço



Sou o fruto da árvore de ontem
Sou o hoje, semente do amanhã
Eu sou tempo no espaço de um instante
Gosto de trovão, chuva temporã

E você passarinho não vai longe
Sempre espera o que vem, nunca procura
Mesmo estando à beira da loucura
Do seu próprio destino se esconde

No seu peito não chove, nem molha
Faz um tempo que o amor não germina
Porém como é da minha própria sina
Ser o que antecede o depois
Sou o espaço, o momento que combina
Em compasso o entrelaço de nós dois.

João Sereno / Victor Fidel

Exportando amigos



Vou exportando amigos
mandando peitos pra longe
e só importo saudade e dor
e só me importuna essa dor
de vê-los tão perto, distantes
de relembrar cada instante
cada poesia, mesmo no computador...

uns vão pra Europa,
outros pra Bolívia,
uns vão ver a copa
outros à deriva...
um pro Paraguai
e outro já nem vai
fazer despedida
que é pro choro não vir
como taxa de embarque...
só não vão pro Iraque,
pelo amor de Deus, não vão pro Iraque...

exportando amigos,
importando dor...

é...asa rima com casa
mas quem fica em casa não voa...

Zecalu Guimarães

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Paisagem de Interior



A maioria já deve conhecer a poesia de Jessier Quirino Paisagem de Interior, pois bem, achei no Blog Jornal da Besta Fubana, do compadre Luiz Berto, uma paródia para a poesia.

Paródia Paisagem de Interior
(Bob Motta)

Um jumento garanhão,
comendo à força a jumenta,
uma bufa fedorenta,
esvaziando um salão,
festa de apartação,
um inverno promissor,
um vaqueiro aboiador,
um cachorro desnutrido,
Isso é cagado e cuspido
Paisagem do interior…

Um carro de boi cantando,
carregado de madeira,
tenta subir a ladeira,
com os bois quase se arrastando.
A seriema cantando,
inspirando o trovador,
papagaio falador,
putanheiro e enxerido,
Isso é cagado e cuspido
Paisagem do interior…

Comer um peba torrado,
batata doce, tacaca,
repolho cru, mão de vaca,
e culhão de touro, assado;
dá um peido desgraçado,
ninguém agüenta, doutor.
A podrura e o fedor,
mata um homem enturido,
Isso é cagado e cuspido
Paisagem do interior…

Uma turma conversando,
lá no coreto da praça,
peidos de feijão macassa,
e as mentiras desfilando.
Aposentado prosando,
reclamando do calor,
estórias de caçador,
de convenção de partido,
Isso é cagado e cuspido
Paisagem do interior…

Uma ruma de peão,
dormindo no alojamento,
bufas a todo momento,
som de peido e violão.
Muito feliz, o patrão,
olha seu reprodutor,
fudendo a todo vapor,
no curral, desinibido,
Isso é cagado e cuspido
Paisagem do interior…

Pamonha, milho, canjica,
E fogueira de São João,
forró quente no salão,
é uma festa muito rica.
Mais contente ainda fica,
quem sarra com o seu amor,
no escuro, sem pudor,
no levantar do vestido,
Isso é cagado e cuspido
Paisagem do interior…

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Tombaram o acarajé



Tombaram o acarajé
E ele rolou, rolou, rolou
Na ladeira do pelô
E foi parar na mesa do patrimônio
Cultural do meu Brasil

Tombaram o acarajé
E ele rolou, rolou, rolou
E virou imperecível
Intocável, comestível
Pela mão do baiano
Gilberto Gil

Mas na minha mesa
Mas na minha boca
Ele continua sendo apenas
Bolo de feijão
Feito no dendê
Com cebola e sal
Que eu boto pimenta
Vatapá e camarão

E olha que eu não como
E olha que eu não como
E olha que eu não como tradição

Será que vão tombar o meu paladar
Ou o abará e moqueca de tatá?
E a barba de Juvená?

João Sereno / Ruy Penalva

sábado, 11 de outubro de 2008

Centro do Coração



Deus desenhou meu coração
De um jeito igualzinho
Ao velho Centro do Rio
São tantos pontos de luz
Em direção a procissão da festa
Da Candelária
Eles percorrem minhas coronárias
Vejam vocês:
No carnaval, o bonde 66
Na Sete de Setembro apareceu mais uma vez
Tem condutor, motorneiro
Tem o Guinga, o Paulinho Pinheiro
O nogueira e o velho Hermínio
Num reduto biriteiro
Um camelô troca as pilhas do meu coração
De quebra me vende mais uma ilusão
Rua do Carmo, Uruguaiana, Ouvidor
São pontes de safena pra tamanho amor
Mas o ar ta me faltando porque alguém sujou
Cruzo a Primeiro de Março e até o mar azul eu vou

Moacyr Luz, Aldir Blanc e Vítor Martins

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Chegou a Vez



Chegou a vez desse céu, desse céu,
Que é só seu, que é só meu, que é de todos!
Que um dia olharam “prum” céu tão azul
Tão anil, que sumiu, que ficou tão escuro e vazio.

Chegou a vez desse mar, desse mar,
Maravilha da ilha que bóia tranqüila
Não sabe que tem a seus pés todo um resto de vida
E de morte sem dor, sem razão!

Chegou a vez desse chão, desse chão,
Chama Deus, que só Deus para nos ajudar a pisar
Sem esse medo de ter nossos dedos comidos
Por chãos canibais!

Chegou a vez da canção, da canção,
Pra cansar, pra caçar, pra causar uma revolução!
Uma revelação da criança que chora escondida
Por trás dos jornais.

Chegou a vez, minha vez, nossa vez,
Nossa voz, pra quem ver, tanto fez, tanto faz
Faz tanto tempo que o tempo não pára
Pra ver a vergonha estampada no olhar.

Maviael Melo e Rodrigo Sestrem

O Mundo é Um Moinho


Ainda é cedo amor
Mal começaste a conhecer a vida
Já anuncias a hora de partida
Sem saber mesmo o rumo que iras tomar

Preste atenção querida
Embora eu saiba que estás resolvida
Em cada esquina cai um pouco tua vida
Em pouco tempo não serás mais o que és

Ouça-me bem amor
Preste atenção o mundo é um moinho
Vai triturar teus sonhos, tão mesquinho.
Vai reduzir as ilusões à pó

Preste atenção querida
Em cada amor tu herdarás só o cinismo
Quando notares estás à beira do abismo
Abismo que cavastes com teus pés

Cartola

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Você (Título provisório)



Você brota do meu olho
como uma lágrima em tempestade
como uma fugitiva da saudade
uma fugitiva da justiça
que procura abrigo em mim

Você nesce no meu peito
como a planta da vaidade
como o sol da liberdade
como a ansia de querer
de querer tudo sem fim

Você dorme no meu ombro
como o frescor da vontade
como beijo que antecede
um momento de prazer

Mesmo tão dentro, tais fora
surtindo efeito contrário
pois no seu itinerário
a passos lentos já contas
detalhando a sua história
n'um elo já encravado
dentro da minha memória

Você quer viver a vida
sempre achando uma saída
que vai dar na minha vida
sem querer saber do fim.

Victor Fidel / João Sereno

domingo, 5 de outubro de 2008

Aprender a sonhar



Daqui a pouco o tempo vai passar
não me espere, não desespere
o mundo vê no seu olhar
que a cacimba não secou
não gaste água pra chorar
mantenha o sonho

Você não sabe o que é sofrer
saber pisar n'um coração
saber tocar um violão
saber as cordas amarrar
pegar com força, não machucar
fitar no olho e não piscar
você não sabe o que é chorar
mantenha o sonho
mantenha o sonho
vem aprender como acordar.

Victor Fidel

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

A Lua do meio dia no sertão



Não me falta a terra
não me falta o lar
aqui tenho esperança
eu tenho “sim sinhô”

Não me falta o pão
não falta trabalho
nem sabedoria
começa um novo dia

E as tecnologias não me vencem
nem mesmo as mais avançadas
e os meus lábios falam sem cessar
o sol que fere o chão
é o que branqueia o meu pesar

Encontro a fertilidade
e nada me faltará
água e terra para plantar
colher e tá na mesa

A beleza das flores das noites de lua
aurora, crepúsculo
todas as cores e tudo que é vida
meu clarão é o sol

Cláudio Barris / Rennan Mendes / Gildemar Sena