sábado, 26 de julho de 2008

Identidade sem Crise



A identidade em mim não provoca crises,
mas, sim, saudade
inconsciente de casa...
Deus não quis apagar de minha mente
a lembrança do tempo em que eu tinha
três pares de asas...
Inclusive Isaías, naquela visão que ele teve
no dia em que fora consagrado
e escolhido para profeta,
me viu entre os seres alados da referida visão
que o mesmo assim descreveu:
“No ano em que morreu o rei Uzias
eu vi ao Senhor assentado sobre um alto
e sublime trono; e o seu séquito enchia o templo.
Os serafins estavam acima dele,
cada um tinha seis asas:
com duas cobriam os seus rostos
e com duas cobriam o seus pés
e com duas voavam {ah! voávamos, livres e felizes
numa velocidade espantosa demais para os testudíneos
e limitados padrões de voo aqui de baixo}”.
E os citados serafins , dentre os quais eu estava incluído,
“clamavam uns para os outros,
dizendo: Santo, Santo, Santo é o Senhor dos exércitos:
toda a terra está cheia da sua glória”.

José Lindomar Cabral

sexta-feira, 25 de julho de 2008

Espumas flutuantes



Início: um canto à leitura

Antevendo a necessidade do incentivo à leitura no Brasil (e de Castro Alves afirmou Fausto Cunha era dotado de "um sentido divinatório que lhe insuflava soluções difíceis de esperar no seu tempo"), o poeta traz uma bênção a todos que dedicam-se a este labor: O LIVRO E A AMÉRICA, é o primeiro poema, de seu primeiro livro...

Oh! Bendito o que semeia
Livros... livros à mão cheia...
E manda o povo pensar!
O livro cainda n'alma
É germe - que faz a palma,
É chuva - que faz o mar.
(...)

Bravo! a quem salva o futuro!
Fecundando a multidão!...
Num poema amortalhada
Nunca morre uma nação.

Conclusão
Castro Alves

Eu tenho medo de lhe amar



Eu tenho medo de lhe amar
Mas do que amo
Eu tenho tantos planos
Pra nós dois.

Eu podia me esconder de você,
Eu podia até me perder,
Eu podia não querer mais nada.

Eu tenho medo
De amar
Mas sei que sou capaz
Eu sou apenas um rapaz ingênuo.

Eu não quero duvidar
De mais um sonho
Dum sonho não se deve
Desacreditar
Eu prefiro mergulhar
Inteiro.

Ai amor
Na vida há sempre
Um novo momento
Deixe o sentimento
Semear no vento
Deixe esse momento
Semear o amor.

Manuca Almeida

quinta-feira, 24 de julho de 2008

O mundo é grande

O mundo é grande e cabe
nesta janela sobre o mar.
O mar é grande e cabe
na cama e no colchão de amar.
O amor é grande e cabe
no breve espaço de beijar.

(Carlos Drummond de Andrade in “Amar se Aprende Amando”)

Blusa Fátua



Costurarei calças pretas
com o veludo da minha garganta
e uma blusa amarela com três metros de poente.
pela Niévski do mundo, como criança grande,
andarei, donjuan, com ar de dândi.

Que a terra gema em sua mole indolência:
"Não viole o verde de as minhas primaveras!"
Mostrando os dentes, rirei ao sol com insolência:
"No asfalto liso hei de rolar as rimas veras!"

Não sei se é porque o céu é azul celeste
e a terra, amante, me estende as mãos ardentes
que eu faço versos alegres como marionetes
e afiados e precisos como palitar dentes!

Fêmeas, gamadas em minha carne, e esta
garota que me olha com amor de gêmea,
cubram-me de sorrisos, que eu, poeta,
com flores os bordarei na blusa cor de gema!

Vladimir Maiakóvski
(tradução: Augusto de Campos)

Voltei pra ficar



Já pintei o campo na minha emoção
Repassei a mata afinei a passarada
Pra espantar a solidão
Eu quero voltar lá pro meu sertão
Pra ver os "riacho" ver se um dia me acho
Na palma da sua mão

Tô com saudade do mandacarú
Do galo de campina
De beijar você menina
Saudade do cheiro da flor
Como é bonito ver a chuva que caindo
A terra ensina:
Brotar, parir, fazer crescer
O fruto doce à sua boca
Paisagem mansa, ipueira bem cheinha
Minha casinha branquinha
Lá que é o meu lugar
Baira de rio, pé de umbu,
Menino rindo
Sob o pé de tamarindo
Eu jurei que ia voltar

João Sereno, André Santana e Ruy Penalva

quarta-feira, 23 de julho de 2008

Não Foi Crucificado



No tempo em que as estradas eram poucas no sertão
Tangerinos e boiadas cruzavam a região entre volante e cangaço
Quando a lei era do braço do jagunço pau mandando do coronel invasor
Dava-se no interior esse caso inusitado
Quando o palmera das antas pertencia ao capitão Justino Bento da Cruz
Nunca faltou diversão vaquejada, canturia, procissão e romariasexta-feira da Paixão
Na quinta-feira maior Dona Maria das Dores no salão paroquial
Reunia os moradores depois de uma pré-eleção ao lado do capitão
Escalava a seleção de atriz e atores
Todo ano era um Jesus, um Caífaz e um Pilatos
Só nao mudavam a cruz, o verdúguio e os mal-tratos
O Cristo daquele ano foi o Quincas Beija-FlorCaífaz foi Cipriano
Pilatos foi NicanorDuas cordas paralelas separava a multidão
Pra que pudessem entre elas caminhar a procissão
Quincas conduzindo a cruz
Foi e num foi advertia, um cinturião pervesso que com força le batia
Era pra bater maneiro, Bastião não entendia
Devido um grande pifão que tomou naquele dia do vinho que o capelão guardava na sacristia
Cristo dizia:
"ô rapaz, ve se bate devagar, já to todo encalombado assim não vou aguentar,ta com a gota pra duer, ou tu para de bater ou a gente vai brigar jogo ja essa cruz fora, to ficando aperriado, vou morrer antes da hora de ficar crucificado"O pior é q o malvado fingia que não ouvia e além de bater com força ainda se divertia, espiava pra jesus, fazia pouco e dizia:"que Cristo froxo é você que chora na procissão?
Jesus pelo que se sabe num era mole assim não eu to batendo com pena,
tu vai ver o que é bom, na subida da ladeira da venda de fenelon o couro vai ser dobrado
até chegar no mercado da cuica muda o tom
"Naquele momento ouviu-se um grito na multidão era Quincas que com raiva sacudiu a cruz no chão e partiu feito um maluco pra cima de Bastião
Se travaram num tabefe, pontapé e cabeçada
Madalena levou quedaPilatos levou pancada
Deram um cacete em Caífaz que até hoje não faz nem sente gosto de nada
Dismancharam a procissão o cacete foi pesado
São Tomé levou um tranco que ficou desacordado
Acertaram um cocorote na careca de Timotéo que inté hoje é aluado
Inté mesmo São José que não é de confusão,
na ansia de defender o seu filho de criação aproveitou a garapa pra dar um monte de tapa na cara do bom ladrão
A briga só terminou quando o doutor delegado interviu e separou cada santo pro seu lado
Desda que o mundo se fez, foi essa a primeira vez que Jesus foi pro xadrez mas não foi crucificado.

Chico Pedrosa

terça-feira, 22 de julho de 2008

Entardecer na Fazenda



O anoitecer na fazenda
Traz um sol de esperanças
Para o dia que vem

Céu vermelho é o sangue das cores
Vistas nos arredores
Salpicadas de sol

Um bom pigarro
No uísque do doutor
Um bom cigarro, curtição do plantador

E a lua nova
Um anel no céu do entardecer
Cigarrra canta, ai, até morrer

Já deu seis horas, mãe da lua anunciou
Agora é ceia, prosa, verso e tocador
A sanfoninha, oito baixo e toca alto pra danar
Baião no chão, no céu, no ar.

Chico Anysio e Arnaud Rodrigues

Mel e Aveloz



Eu não sei viver sofrendo, deixa disso e vem me ver
Vamos tentar novamente amor
Não existe eu sem você,
Tua falta me tonteia
Tira o sal do meu viver
Teu amor pegou na veia,
Causa dor, mas dar prazer
Eu quero, de novo, beber todo o mel
E renascer qual aveloz
Gemer toda dor, gozar todo o gozo que somos nós.

Nando Cordel

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Uma janela pra ela



Uma janela pra ela
No meu olho passear
Não estou mais só,
De alguma forma
A comunicação visual
Cala o meu silêncio
E Juazeiro vai
Em Petrolina desaguar

Victor Fidel

terça-feira, 15 de julho de 2008

Mais Fundo Que Qualquer Raiz



Nem todo riso é de alegria
Nem todo pranto de tristeza
Nem todo feio é feio todo
Nem todo belo é só beleza
Nem todo grito é ouvido
E ás vezes o silêncio diz
Mais forte que qualquer palavra
Mais fundo que qualquer raiz

Se o tempo tão ligeiro passa
Pra vida não passar por nós
Fazer do peito dia pleno sol a pino
Que nada é por demais atrás
Cantar apesar do silêncio pra saber
Que o canto vai além da voz

Ricardo Cardoso

Coco verde



Leio, ouço, comento e grito
Que o mundo não tem razão
Nunca mais eu me largo, amigo
Na sombra de sua mão

Tanta gente se diz dona da luz
Mas eu não tô nessa, não me seduz
Fim do século da espera
E da comunicação

Eu me ligo é numa rede
E num pé de coco verde
Eu me amarro é na Tereza
Minha amiga, irmã

Rio, turvo, curvo e atribulado eu sou
Boa noite, já está passando da hora, eu vou

Pois me ligo é numa rede
E num pé de coco verde
Eu me amarro é na Tereza
Minha amiga, irmã

Sérgio Sampaio

Como tem Zé na Paraiba



Vixe com tem Zé
Zé de baixo Zé de Rita
Me Desconjuro com tanto Zé
Como tem Zé lá na Paraiba

Lá na feira é só Zé que faz frevura
Tem mais Zé do que coco catolé
Só de Zé tem uns cem na prefeitura
Outro cem no comercio tem de Zé
tanto de Zé desse jeito é um estrago
Eu só sei que tem Zé que dá com pé
Vai lembrar a gagueira de um gago gaguisse danou a de Zézé

Em eum forró que eu fui em Cajazeira o cacete contou e fez panzé
Pois um bebado no meio da bebedeira falou mal e xingou a mãe de um Zé
Como só tinha Zé nesse zum zum ouve logo tamanha arrapapé
Mãe de Zé era mãe de cada um no saão brigou tudo que era Zé

È Zé João Zé Pilão e Zé maleta
Zé Negão Zé da Cota zé Quelé
Todo Mundo só tem uma receita quando quer ter um filho só tem Zé
E com essa franqueza que eu uso eu repito e se zangue quem quiser tanto Zé desse jeito é um abuso mas o diabo que eu tambem me chamo Zé

Catulo de Paula / Manezinho Araújo

Rua da Passagem



Velha Rua da Passagem
Passa boi, passa boiada
Passa a vida passageira
Passarinho e passarada
Passa o homem feito
Abraçado à sua amada
A criança aprendendo o passo
E um velhinho
De trôpega passada
O sonho que nunca passa
O sorriso da namorada
O papo sem compromisso
E a cervejinha bem gelada
A vida olhando a vida
Devagar, despreocupada
Meninas a passeio
Ar coquete e rijos seios
Passa o dia caminheiro
Da noite, seu cavalheiro
A esperança que nem chegou
O passado que nem passou
E a vida o que seria
Se bem longe, um certo dia
Quando a noite era noite
E o dia não era dia
Não desse no caminho
Da velha Rua da Passagem
Passa boi, passa boiada
Passarinho e passarada
Velha Rua da Passagem
Passa boi, passa boiada
Passa a vida passageira
Velha amiga, camarada

Hélio Contreiras

Alto Que Só



Eu ví a torre Eiffel minha mãe
Tinha tanta gente querendo subir que deu dó
Me lembrei do terreiro do sítio de Vovó
No pé de Manga Espada
A gente brincava
Era alto que só

Eu ví a Torre Eiffel minha mãe
Ví catedrais, avenidas, ruas, vielas, o escambau!
A torre não foi feita de pau
Mas, nada se comparou
A torre que viu meu avô
A torre da Fábrica Tacaruna

Eu ví um bocado de gente mãe
Vi pessoas chegando, saindo, sentindo frio, suando
Imigrantes, Africanos, Argelinos, Indianos
Pessoas se escondendo, fugindo aflitos, felizes sorrindo
Eu vi a Torre de cabeça prá baixo
Eu vi a Torre em plena cidade mamãe

Eu vi a Torre Eiffel minha mãe
Com todo aquele ferro que tinha lá
Eu faria uma Ferroviária
Unindo o Recife a Quipapá!

Silvério Pessoa

terça-feira, 8 de julho de 2008

Prá cantar ao luar



Lá vai o menino montado no sonho
Tangendo seu canto, driblando a tristeza
Buscando nos contos o compasso do tempo
Que ao girar pare o planeta
Encontra o vento pega a inspiração
Novela sem texto não tem direção, não!

É com viola e caneta que chora papel
É no galope do sonho que nasce um cantar
E o menino vai tocando a jornada

Ponteia viola, ao ver o luar
Criando a história que estou a cantar

Paulinho Jequié / João Sereno

quinta-feira, 3 de julho de 2008

O Nordeste se enfeita e se perfuma Quando o pranto da nuvem se derrama



O vaqueiro cantando uma alegria
A morena se ajeita na janela
O poeta pintando uma aquarela
Com o pincel cria forma de poesia!
É a chuva causando a invernia
Orvalhando a flor, florindo a rama
Na porteira um aboio se declama
Sem ensaio a boiada se apruma
O Nordeste se enfeita e se perfuma
Quando o pranto da nuvem se derrama

Maviael Melo