quarta-feira, 30 de abril de 2008

Sentença Amenizatória

O decreto do relógio divino
É feito artigo penal
Se bater num acidente, é fatal!
Se escapado por pouco, foi fedendo!
Na constituição do céu já vem dizendo:
Bobeou? O inferno é o degrau.

Mas por bem, inventaram um bolodório
Uma tal de sentença amenizada:
Se pisares no buraco da escada
E tiveres um anjo advogado;
Ele revoga o castigo aplicado
E o indivíduo vai parar no purgatório.

Victor Fidel

terça-feira, 29 de abril de 2008

Enquanto você me quiser como chão...



Enquanto você me quiser como chão...

Eu sou lama, não sou grama
Eu sou o aluvião
Sou areia com espinho,
Não vou ser caminho não
Eu vou ser um labirinto
Sem parede e sem cerca
Só pra que você se perca e perca a orientação....

Enquanto você me quiser como chão...

Eu sou mangue e tiro sangue
Do seu pé, seu coração,
Eu não sou o seu tapete,
Seu carpete, seu salão,
Nem o seu chão encerado,
Mas vou ser piso molhado
Pra ver sua queda, seu escorregão...

Enquanto você me quiser como chão...

Eu vou ser rastro de brasa,
Caco de vidro e facão,
Não vou ser sua vereda,
Sua trilha ou pontilhão,
Quero ser o chão rachado,
E o asfalto esburacado
Que corta o pneu do seu caminhão...

Enquanto você me quiser como chão...

Pista sem acostamento,
Estrada na contramão,
Via de cimento e prego,
Para sua procissão,
Ser areia movediça,
Pra que quando você desça,
Me grite e me peça pela minha mão...

Enquanto você me quiser como chão...

Zecalu Guimarães

segunda-feira, 28 de abril de 2008

Xangai - Mutirão da Vida



Primeiro LP solo de Xangai pela Kuarup, incluindo a versão completa da Natureza, de Xangai e Ivanildo Vilanova, e de O Menino e os Carneiros, de Geraldo Azevedo e Carlos Fernando. Totalmente remasterizado por Luigi Hoffer, e nova capa de Janine Houard. Direção musical de Jaques Morelenbaum.[fonte]

Download Xangai - Mutirão Da Vida (1984)

Faixas:
01 Fábula Ferida (Jatobá)
02 Trabalhadores do Metrô (Walter Marques/ Raimundinho)
03 O Menino e os Carneiros (Carlos Fernando/ Geraldo Azevedo)
04 O Sapo no Saco/De Quinze Para Trás/Gírias do Norte (Ratinho/ Xangai/ Pinto Pelado/ Jacinto Silva/ Onildo Almeida/ Jararaca)
05 Ele Disse (Edgar Ferreira)
06 Mutirão da Vida (Hélio Contreiras)
07 Violêro (Elomar)
08 O Pidido/Clariô (Elomar/ Elomar)
09 Alvoroço (Capinam/ Xangai)
10 Kukukaya (Jogo da Asa da Bruxa) (Kátia de França)
11 Cumeno cum Cuentro (Alex Madureira)
12 Natureza (Ivanildo Villa Nova/ Xangai)

Ficha Musical
Banda Cumeno cum Cuentro:
Jaques Morelenbaum (celo)
Alex Madureira (viola)
Marcelo Bernardes (sopros)
Mingo (percussão)

participações especiais
Geraldo Azevedo (violão em 3)
Hélio Contreiras (violão em 6
Marquinhos (sanfona em 2)
Marcos Amma (percussão em 2,4,6,9,10,11)
Paula Morelenbaum (vocal em 8)

Ficha Técnica
Produzido por Mario de Aratanha e Xangai
Direção Musical de Jaques Morelenbaum
Arranjos: Xangai e a banda Cumeno cum Cuentro
Assistencia artística: Janine Houard
Arregimentação: Grace Elizabeth
Gravado e mixado no estúdio Porão, Rio de Janeiro, em junho-setembro de 1984, por Filipe Cavalieri.
Contra-regra: Bira Dantas
Masterizado para CD por Luigi Hoffer (Microservice) em 1998
Capa e Foto: Janine Houard
Agradecimentos especiais: Egberto Gismonti, Ivair Vila Real, Ney Távora, André Geraissati.

Postagem retirada do sombarato.blogspot.com

sábado, 26 de abril de 2008

Fragmento de "O Sertão em Carne e Alma"

Sem Brasil a América é derrotada
Com o Brasil a América vale mil
Sem Nordeste o Brasil não é Brasil
E sem Sertão o Nordeste não é nada.

Ivanildo Vila Nova

Palavras Medidas




Nessa paisagem
Em que sinto teus sonhos
De brilho sob o céu
Nessa miragem
Em que vejo teus olhos
Arco-íris cor de mel,
Nestas palavras medidas
Que tiro da vida...

Perdoa! Perdoa!

...Nessa viagem
Sonhada e perdida,
Perdão por te falar!
Que essa bagagem
Que são meus desejos
Ao rio vai retornar:
Estas palavras medidas
Eu tiro da vida.

Perdoa! Perdoa

Meus caminhos tão tortos!

Zecrinha / Waldísio

terça-feira, 22 de abril de 2008

Fortuna Crítica

Fora de tua tribo, peixe fora d’água, bordando as muitas dores no ponto de cruz, alinhavas rebanhos, reunidos na frágua dos rios da tua infância, com escamas de luz. Versos tecidos na cambraia das anáguas de alices caboclas, yaras-cunhãs do fundo, encantadas dos peraus, afogando mágoas, mas que sabem, sestrosas, dos botos do mundo. E os teus pés desgarrados pisaram em nuvens de ventos sem mormaços no azul de outras línguas: águas despidas do alfenim de nossas chuvas. Te sabias folha de relva da ravina irmã de Whitman e do Khayam simun próxima do teu gado e rês da própria sina.

Aníbal Beça

sábado, 19 de abril de 2008

Eu mereço



Eu mereço
O que tenho
E o que não
Tenho também.
Eu pensei
Que não podia
Amar tanto assim
Até pensei
Que não sofreria
Assim.
Eu pensei
Que podia
Viver pensando
E não pensei
Que podia
Não pensar.

Manuca Almeida

terça-feira, 15 de abril de 2008

Biológico ou não...



Acho que me perdi no tempo
Tentando encontrar o agora
Falou-se que o tempo toda hora muda
(Muda sim senhora)
Se ontem era certo e hoje já é dúvida
A dúvida me explora
A hora todo tempo muda
Já mudou agora

Se quero acertar o relógio
Tenho que comer, tenho que dormir
Se quero acordar direito
Tenho que sonhar e me divertir
Se ando na linha exata
Com o trem, tenho que partir
E chegar na hora certa
Pra então chorar
Ou poder sorrir.

Victor Fidel / Wesley Carvalho

segunda-feira, 14 de abril de 2008

Clarice Lispector



Nasci dura, heróica, solitária e em pé.
E encontrei meu contraponto na paisagem sem pitoresco e sem beleza.
A feiúra é o meu estandarte de guerra.
Eu amo o feio com um amor de igual para igual.
E desafio a morte.
Eu - eu sou a minha própria morte.
E ninguém vai mais longe.
O que há de bárbaro em mim procura o bárbaro e cruel fora de mim.
Vejo em claros e escuros os rostos das pessoas que vacilam às chamas da fogueira.
Sou uma árvore que arde com duro prazer.
Só uma doçura me possui: a conivência com o mundo.
Eu amo a minha cruz, a que doloridamente carrego.
É o mínimo que posso fazer de minha vida: aceitar comiseravelmente o sacrifício da noite.

Clarice Lispector

Folia Caeté



Sou brasileiro, meu bem
De janeiro a janeiro
De ralar o ano inteiro
Pra ver se a vida um dia vai mudar
Para um melhor fevereiro
Festa de carnaval
Pular, esbaldar festeiro
Pra ver se a minha vida vai mudar

Eu vou driblando as broncas
Pra gororoba chegar
Eu dou nó cego até no ar
Pra fazer meu direito valer
Feito gente adulta de ser
Respeite o cidadão que é de lei
Seja um, qualquer um, toda vez
Tenho a dizer
Moradia é lugar que se tem
A saúde é gozar muito bem
E saber que não deve minguar
E exercer
O respeito por todo alguém
Que é de todos não é de ninguém
O direito sagrado: Viver

Cidadania vingar
Cantada bem pra valer
Viver feliz é o que se quer
Mesmo quem venha a nascer
Cidadania é viver
Na folia caeté.

quinta-feira, 10 de abril de 2008

Neto Mau



O neto mau matou vovô
Comeu vovó, sobrou mamãe
Mas não foi culpa de ninguém
Não foi culpa nem de Freud
Nem foi de ninguém

A culpa foi de Helena Rubinstein
A culpa foi de Helena Rubinstein

Como o índio botocudo
Bota seu botoque
No fim de semana
Azara sua zarabatana
Vovó botou botox e virou neném
Mas não foi culpa de Freud
Nem foi de ninguém

A culpa foi de Helena Rubinstein
A culpa foi de Helena Rubinstein

Este samba então seria letra morta
Seria mais um drama de fim de semana
Seria mais um crime que rolou na cama
Se vovó não tivesse ganho uma neném
Quem também se chamou de Helena Rubinstein
Mas não foi culpa de Freud
Nem foi de ninguém
Nem foi de ninguém
Nem foi de ninguém

A culpa foi de Helena Rubinstein
A culpa foi de Helena Rubinstein

"essa é a Tragédia de Édipo recontada modernamente"

Ruy Penalva / João Sereno

quarta-feira, 9 de abril de 2008

Calendário



Enquanto não vem o Ben Joseph,
Lá se vão os calendários,
Chineses ou romanos
Gregos ou troianos
Não importam o mês, o ano,
O que importa é o dicionário

Ao mesmo tempo em nascimento
É dada a largada para o fim
Quanto mais aniversário
Mais um "X" no calendário
Menos um dia pra você
Menos um dia pra mim

Victor Fidel

terça-feira, 8 de abril de 2008

Estrangeirismo



Carlos Silva e Sandra Regina

Outro dia me convidaram para irmos ao MC DONALD'S comermos CHEES BURGER.
O salão estava lotado e fizemos os pedidos através de um tal de DRIVE THRU.
Os colegas, percebendo a minha irritação, disseram: Se tu tiver com pressa, eles têm um sistema de DELIVERY, maravilhoso.
Desacostumado com este linguajar chamei os cabas: - Vâmo s’imbóra.
Seguimos pela avenida HENRIQUE SCHAUMANN, onde pude observar um OUT DOOR escrito: CHINA IN BOX, e uma seta indicativa PARKING.
Nós não paramos por lá não.
Seguimos mais adiante, avistamos um restaurante bonito e luxuoso e na porta de entrada uma luz neon piscando escrita: OPEN.
Quando olhei pro chão, pude ver estampado um capacho com a bandeira americana me convidando: WELLCOME.
Ao adentrarmos naquele recinto, eu pude observar na sua decoração e nas paredes estava escrito assim: ICE CAKE, CHEES EGG, CHEES BURGER e FAST FOOD.
Eu pensei comigo: “FOOD na Bahia a gente USA numa outra situação...”
Do meu lado esquerdo uma garota tomava uma cerveja numa lata vermelha e azul cuja marca era BUDWISER. O camarada que lhe acompanhava tomava sua LONG NECK HEINIKENN.
Do me lado direito uma loira bonita, peituda falava pro cabra com voz sensual assim: “Eu trabalho numa RELAX FOR MAN...” E ele pergunta prá ela: “Fica próximo do Motel MY FLOWERS?”. E ela lhe responde:“Não BABY, fica junto ao NIGHT CLUB WONDERFUL PENETRATION!”
A fome aumentava juntamente com a raiva e eu não sabia se pedia um HOT DOG, ou um simples cachorro quente.
Emputecido mais uma vez com aquela situação, chamei os caboclos:- Vâmo s’imbóra.
Na saída o manobrista nos recebe e nos entrega as chaves do nosso possante veiculo – um fusca 67 fabricado em Volta Redonda na época do presidente JUSCELINO KUBITSCHEK.
Ele olha prá mim e me diz: “THANK YOU SIR AND HAVE A GOOD NIGHT.”
E eu usando toda minha simplicidade e educação que aprendi no sertão da Bahia, olhei prá ele e lhe disse:- VÁ PRÁ PUTA QUE LHE PARIU.

sábado, 5 de abril de 2008

Ego sum qui sum

Quem poderia
Me corrigir?
Me retrucar?
Como poderia ser
Outra pessoa
Que não cabelos brancos
Charutos e leão?
Como poderia
Ser outra pessoa
Que não Julio Gato
Com medo nenhum
E seu "Ego sum qui sum"?
Ego sum qui sum
Ego sum qui sum
Quem poderia ser igual...?

Fidel

sexta-feira, 4 de abril de 2008

Pode ser, pode não ser... Quanto mais principalmente



Pode ser que eu esteja
Aqui nesse atrapalho
Pensando numa cerveja
Logo depois do trabalho
Pode ser só impressão
Ou coisa dessa "internisse"
Pode ser que eu já saí
Para encontrar uma misse
Pode ser que eu já voltei
Não sei quem foi que me disse
Pode ser o que eu não sei
Também não quero saber
Só sei que daqui pra frente
Vou lhe encher de repente
Pra no site transcrever
Pode ser, pode não ser
Quanto mais principalmente

Maviael Melo

quarta-feira, 2 de abril de 2008

Poema Um



As pestanas do braço do violão
dormem sob as cordas em letargia
vindas do som das flêrpas macias
despertam sob os trastes / abandonados
vividos e pressionados em posição dúbia
reinventam armações
conhecem o tato do seu dono
dedos encerram tonantes medonhos
se o bojo do seu violão
estômago feito em madeira
e o desempenho das mãos
gemeram quando ecoaram
respondendo à fricção faiscante
do raio-aço inoxidável
primas / irmãs / bordões e mães d'água.

Zé Ramalho

terça-feira, 1 de abril de 2008

1º de Abril é o dia

Se safar, ou fazer alguém imaginar?
Qual o real propósito?
Evidentemente que depende da situação, mas venhamos e convenhamos que a mentira, fora seus efeitos danosos, tem ao longo do tempo feito risadas brotarem da nossa face com as piadas e contos, que quando não verídicas não deixam de ser "mentira". Então como classifica-lá?
Nesse 1º de Abril venho aqui postar um presente à mentira, fonte de imaginações geralmente instantâneas e criativas.
De forma geral, ela tem o poder de mudar situações. Dentre elas a forma de pré-conduzir o mundo até que descoberta, (risos) todos nós trazemos em nosso arquivo paradigmático que: "Um dia ela é descoberta", enquanto isso fica a mostrar sua estampa com detalhes "mentirais".
Pois bem, tem efeito. Deixando todo esse bolodório de lado, desejo a todos um criativo dia da mentira, sem danos (rsrsrs).

Fidel

O Erro da Vendedora - Chico Pedrosa



O engano é uma falta
difícil de reverter,
por ele tem muita gente
sofrendo sem merecer,
quantos pobres inocentes
tidos como delinqüentes
estão a se lamentar;
se o errar fosse humano
como dizem, o engano
não faria alguém penar.

Um estudante entrou numa
loja especializada
para comprar um presente
para sua namorada
que estava n'outra cidade,
depois de olhar a vontade
os artigos da vitrine
despertou-lhe o interesse
por algo que aquecesse
os dedos das mãos de Aline.

Um belíssimo par de luvas
comprou para namorada,
e pediu à vendedora
moça fina e educada
que embalasse o presente;
inadvertidamente
no lugar da encomenda
a moça se atrapalhou
invés das luvas botou
uma calcinha de renda.

E logo entregou ao moço
que acabara de escrever
um bilhete à namorada
dizendo como fazer
com aquele presentaço,
minha querida, um abraço
e beijos apaixonados
meu amor, este presente
vistas pensando na gente
no dia dos namorados

Lhe mando, porém sabendo
que você não vai usar,
porque quem nunca vestiu
é difícil acostumar,
por isso eu queria ir
pra lhe ensinar a vestir
como fez a vendedora;
se nela eu gostei de ver
imagine em você
minha deusa encantadora.

Ela também garantiu
que não mancha nem desbota,
a mão entrando e saindo
não rasga nem amarrota,
eu comprei larga na frente
pra mão chegar livremente
nas bainhas dos torpedos;
e sem precisar forçar
lá dentro facilitar
o movimento dos dedos.

Torço para que te sintas
feliz com este presente
que irá vestir aquilo
que pedirei brevemente,
cobrir aquilo que um dia
quando eu não te conhecia
não podia nem tocar;
hoje eu pego, aperto, amasso,
coço, massageio e faço
você gemer e sonhar.

Só uma coisa lhe peço:
depois que você usar
coloque um pouco de talco
para desinfectar
e evitar o mau cheiro,
feito isso, o dia inteiro
pode usar e se exibir,
e se na rua alguém parar
pra lhe perguntar quem deu
pode dizer que fui eu
seu namorado Valdir.

A namorada tomou
aquilo por gozação,
num segundo veio abaixo
seu castelo de paixão,
despachou o namorado
que até hoje, coitado,
a culpa imerecedora
carrega sem entender
e assim paga sem dever
o erro da vendedora.
Chico Pedrosa