terça-feira, 27 de novembro de 2007

Acontece

Quadro de Pablo Picasso

Bateram à minha porta em 6 de agosto,
Aí não havia ninguém
E ninguém entrou, sentou-se numa cadeira
E transcorreu comigo, ninguém.
Nunca me esquecerei daquela ausência
Que entrava como Pedro por sua causa

E me satisfazia com o não ser,
Com um vazio aberto a tudo.
Ninguém me interrogou sem dizer nada
E contestei sem ver e sem falar.
Que entrevista espaçosa e especial!
Pablo Neruda (Últimos Poemas)

sábado, 24 de novembro de 2007

O Mito


Tela de Gildemar Sena (Uauá-Bahia)


Desbaratado é o que é...
Nunca a sentei do meu colo
Nem vi pela fechadura.
Mas eu sei quanto me custa manter
Esse gelo digno,essa indiferença gaia e não gritar:
Vem fulana!
Como deixar de invadir sua casa de mil feichos
E sua veste arrancando e mostrá-lo depois ao povo
Tal como é ou deve ser: Branca, untata,neutra, rara,
Feita de pedra translúcida, de ausência e ruivos ornatos.
Mas como será fulanadigamos, no seu banheiro?
Só de pensar em seu corpoo meu se punge...
Pois sim.
Por que preciso de corpopara mendigar fulana,
Rogar-lhe que pise em mim.
Que me maltrate...
Assim não.
Mas fulana será gente?
Estará somente em ópera?
Será figura de livro?
Será bicho?
Saberei?

Carlos Drummond de Andrade

quinta-feira, 22 de novembro de 2007

Entre o pente e o repente da Semana Cultural


Não sou esses balai todo!
Sou meio desleriado.
E quando ligo o desligo: tõe-õe-õe-õe-õe-õe!
Vejo que só tenho arranco, ao me ver ali parado.
Minhas dúvidas são campestres.
Minhas rimas são risais.
Baldias, uns dias
De prourar alegias nas baixas dos tristezais.
Pela rodagem dos versos, eu sempre solto um olá!
Pra quem está desolado.
Os meus olhares piscosos?
São piscos de alegria.
Alegria é manga espada, é sempre verde e amarela.
Tanto, que às vezes penso até com certa doidice
Que sou filho da escrotice do bico do peito dela.
E quando cismo dos peitos
Despedaço de minh'alma versos angelicais.
Até despertei paixão, me chamaram de Romeu.
Atá consegui aplausos que o bandeirinha não deu.
Toneladas de paixão e dessas bem toneladas
E o bandeirinha... Ahhh! Bandeirinha! não deu.
Nas matas dos leitos secos os sertôes torno a rimar.
É rima caçando rima feito o fuxico dos galos.
Rimo de Maria Macho à Sinhazinha Dafé.
Sertão de Chico Baygon, sertão de Chico Dé
Da mulherização das jumentinhas
Das coitadas das galinhas
Das maridanças de solteiro, do desrelato de vaqueiro-
Descontramantelo da vida - Do Cariri e do Agreste.
E nordestando o Nordeste sou quase um Cabra da Peste!
Sou vaqueiro, cangaceiro
Sou matuto, sim senhor.
Eu sou Cagado e Cuspido Paisagem de Interior.
Jessier Quirino

terça-feira, 20 de novembro de 2007

Qual a melhor coisa do mundo?


- Qual a melhor coisa do mundo?
Uns dizem que é voar
Outros que é viajar...

Pois eu na minha filosoficação
Impregnada nas paredes da minha cabeça
digo:

"É executar uma necessidade
Que naquele exato momento
Esteja maltratando o indivíduo."

Por exemplo:

Imagine o caba com sede
No deserto do saara
Encontrar um garrafão d'água

"Passar um fax"
Quando o caba tiver
Numa dor de barriga
De torar o cano

A melhor coisa do mundo,
É Mijar quando a bexiga
Tiver parecendo uma melancia
De tanta urina

É soltar um gás
Quando a parte responsável
Já esteja fazendo bico
E não tenha ninguém pra sentir

Então vos digo que a melhor coisa do mundo
É ter onde fazer o que se está precisando
Quando se quer
E ponto final.

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

Diamante

Igor
Diamante raro dos meus olhos
Dê um sorriso
Igor
Rumo do Inferno ao Paraiso
Um bom motivo
A dor
O amor
Um mundo de cor
Que desabrochou
Na flor
Raios do Luar
Lindos a projetar
O amanhã
Letra e música: Ajax Virgolino

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

Fragmento Nº7

... E assim vou seguindo
Ora cego, ora vidente
Pisando na terra quente
Respirando o ar gelado
E o meu corpo assim cansado
Costurando de repente
Algo parecendo um cavalo
Em cair de estrela cadente

Fidel

terça-feira, 13 de novembro de 2007

Além das Preces


Imagem: www.infonet.com.br

A triste seca já voltou
E a asa-branca agourou e já bateu a asa
Plantação defunta no oitão de casa
O chão em brasa
A triste seca já voltou
Ô arco-íris, sopre um vento colorido
Que o verde do teu vestido se espalhe na plantação,
Que o amarelo seja puro e adocicado,
E que a brancura seja a cor da floração,
E que o vermelho sejam flores parecidas
Com os beicinhos das luzidas, “caboquinhas” do sertão
Que não se veja um sertanejo se ajoelhando
Pedindo chuva perante Cristo sonolentos
Que não se veja um solo rachado e sedento
Que sem sustento, às vezes se ajoelhando
Que não se veja baraúna jejuando,
Chorando folha numa paisagem cinzenta
Que não se veja fila de latas sedentas,
Salário d’água matando a sede matando
Ô arco-íris, sopre um vento colorido
Que a fita do teu vestido faça uma festa de cor
Eu quero ver resina de catingueira
Ser o chiclete na boca do meu amor
E que a sanfona toque um xote na colheita
Pra dança das borboletas enfeitadeiras de flor
(Quem vive pelo sertão já vive sertanejado
Pois a chuva não choveja, nem troveja no cerrado
E o sertanejo valente guarda sempre uma semente
Pro inverno abençoado)
Jessier Quirino

Lágrimas de açúcar

Lágrimas de açúcar
Banham teu rosto
Ventos de abril
Levam teu vestido

E ao perceber
Coloquei toda minha força
Dentro desta palavra
Pra fazer você entender
Que o amor não nasce
Ele desperta.

Victor Fidel

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

Hoje (eu tenho relógio)


Imagem retirada do site: http://www.autenticavida.com.br/


No tempo que sobrava tempo
Faltava pouco pra eu desesperar
De tanto tempo que, então, tinha o tempo
Que eu pedia ao tempo pra o tempo faltar.
E hoje só me sobra tempo
Pra pedir ao tempo pra o tempo sobrar
E, então, mesmo faltando tempo
Como antes, falta pouco pra eu desesperar...

No tempo que sobrava tempo
Me restava tanto tempo pra poder pensar
Como então eu gastaria tanto tempo,
Se por mais que eu gastasse, o tempo ia sobrar.
E hoje não me resta tempo,
Hoje o tempo é quem me gasta, aos poucos, bem devagar
Mas mesmo lento, é tão rápido o tempo
Que a gente não tem tempo de ver o tempo passar...

No tempo que sobrava tempo,
Tinha todo tempo do mundo pra poder sonhar
Com o tempo em que ia faltar tempo
Porque eu ia crescer e o tempo ia mudar.
E hoje que mudou o tempo
Vejo que perdi meu tempo esperando ele mudar
E agora tenho tanto pouco tempo,
Que a vontade que me resta é de ver o tempo parar...
Zecalu Guimarães

Milênios de tradições

Milênios de tradições
Em conflitos com roupa "jeans"
Braceletes sagrados
De ouro ou de marfim
Agora ostenta o museu
Para gozo de europeu
E tristeza de "um sem fim"

Pandeiro de couro
Agora é plástico
Do gato é o pulo fantástico
Que tempo no homem deu
Poder de Reis soberanos
Anéis de tendões humanos
São deslumbre de plebeus

Se assim continua o tempo
Aqui no meu pensamento
Quando tudo se acabar
Em museus de sentimentos
A esmo procuraremos
O que pra se admirar?
Sei lá...

Victor Fidel / João Sereno

sábado, 10 de novembro de 2007

O Poeta das Flores!


Se o verso vai embora
Que seria da poesia
Do cantador e da viola
Se o verso fica mudo
Como explicar o mundo
Representar o amor
Falar da beleza da flor
Que seria da poesia
Se o verso se calasse
Nunca mais falasse
Que faria o poeta
Procurando mundo afora
Cavucando o Universo
A porcura dos versos
Que sairam de cena
Foram morar em outro lugar
Cansou de falar
De tentar explicar
Para que tanta confusão
Tanta discordia sem razão
O verso não quer mais escrever da dor
Ele agora só quer saber do AMOR.

Charlie Augusto

Políticação!

Imagem: http://www.claudiohumberto.com.br
Me veio em mente fazer uma frase com palavras criadas, em seguida o cenário proposto foi o político, pelo simples fato de que as pessoas vêem as manobras políticas e não entendem porra de nada, ou quase nada. Sendo assim, resumi em uma frase e uma afirmação logo traduzida.

"A salientação comcumbicente relacionada na mais administradera da nossa patriação é resultado da votacensa no dia 3.
Reclamadero é a pessoação errônea, porque motivo nenhum tem de clamar em Ré. "

Tradução:
O político saliente que está relacionado com a administração da nossa pátria Brasil é resultado do voto no dia 3 de outubro.
O Caba que reclama é uma pessoa errada, porque motivo não tem de Reclamar.
Victor Fidel

sexta-feira, 9 de novembro de 2007

Valentia da gota!

Eu já fiz Lampião se ajoelhar
Me pedindo perdão, dó e clemência
Já mudei todo o curso da ciência
Fiz a Lua da noite de Luar
Fiz o Sol ao meio dia se apagar
Escrevi minha história nos jornais
E na luta incessante pela paz
Esmaguei ditadores truculentos
Só pra Gandhi ensinei mil pensamentos
E o que é que me falta fazer mais!

Maviael Melo

Marcos Canudos

"Rebuliço" no Bridas com Marcos Canudos e Ricardinho de Açúcar.


Digo!

Mesmo ouvindo dizer que o amor é tudo,
Tudo parece fazer o que nunca ouviu dizer.

Victor Fidel

quinta-feira, 8 de novembro de 2007

O corpo e a alma



O corpo quando é ligado
Funciona perfeitamente
É só chegar nove meses
Que o resto é eternamente
A garantia é de Deus
Já rezava João clemente

O gozo é coisa perfeita
Por ter uma variação
É uma dor desgraçada
Acompanhada de tesão
Que é o prazer melhor
Do corpo sem distinção

O nervoso é um negócio
De ficar muito retado
Pode ser uma criança
Ou um senhor já formado
É mexer na paciência
E o sangue é derramado

A alma é cabulosa
Nasceu começa a morrer
Ninguém vê a sua cor
Ora faz por merecer
Ora sem merecimento
Põe quase tudo a perder

Mas no mei do caminho
Faz tanta coisa crescer
Crescendo leva consigo
O bem que ca vei fazer
Ou o mal que a seu retardo
Lhe faz voltar pra sofrer

Fidel / João Sereno

Ameaçado!

Quem Salvará?

A fábrica

O sol nasce atrás da fábrica, lá fora
Mas eles não o vêem, já estão lá dentro, agora...
O sol se põe, então, por entre os muros
E eles não o vêem, já saem de lá, dia escuro...

A fábrica produz, multiplica
Fabrica do bom e do melhor
Fabrica carros e confusos parafusos,
Fabrica gente que não pode ver o sol...

Mas eu vejo um tempo que por aí vem vindo
Em que o povo em frente à fábrica vai ver
O nascer e o por do sol de um dia lindo
Que a gente acostumou a desperceber

E eu sei que esse tempo vem chegando
Não demora, ele é próximo, muito breve
Pode ser daqui a um século ou ano
Ou, quem sabe, até na próxima GREVE!

Zecalu Guimarães

Uauá

Uauá - Sertão da Bahia - Foto: Regys Matarazo

Desafio

1.
Ajunte a nossa versada
Nosso jeito de rimar
Sacuda a poeira da estrada
E deixe o verso vagar
Sem pressa nem desmantelo
Com paciencia e zêlo
Vamos na trova firmar

Misture o que sabes dai
Que eu me viro de cá
Palavras que eu escvrevi
O vento não pode "apagá"
O fogo nunca espalha
Aquece o fio da navalha
Prá rima nunca "torá"

2.
De cá amarro a palavra
"Prela" num fugir de mim
A frase que vou dizer
Tem a força de um estopim
Começa em todo lugar
E ninguém encontra o fim

A mistura do saber
É uma coisa fascinante
Seus versos rimas e trovas
Numa dança costurante
Percorrem os meus neurônios
Em viagem alucinante

Carlos Silva / Victor Fidel

Judite

Judite sai de casa vai a feira
Os homens já apostos
Todos ilusionados
Judite sempre faceira
A mais bonita da vila
Passa com sua sacola
Tomate, alface, acerola

Certo dia, cadê Judite?

Todos apostos e ela não passou
E a preocupação reinou
Saem todos a marchar
Em direção a casa dela
João dá três toques na porta
Todos pergutam, cadê ela?

-Desapareceu na estrada
Desistiu de caminhar
Encontrou falso brilhante
Noutra rede foi deitar
Perdida em seu devaneio
Feito Geni castigada
Por se sentir despresada
No ôco do mundo mundo partiu
Por onde está? ninguém viu
Judite sumiu na estrada.

Victor Fidel / Carlos Silva

Acorde

Vou começar com um escrito meu e de um caba chamado Carlos Silva, cantor e compositor apurado que faz dos desafios o link da nossa amizade. Abraço Malungo.


Acorde

Cantam os pássaros
Abrem-se as janelas
Quebram-se os ovos
Toma-se café
Sai a procurar
Perde o que comprou
Chuta o que achou
Volta de onde acordou
Zoam as moriçocas
Bota-se o mosquiteiro
E vai dormir injuriado

Acorde Zé!

Acordo injuriado
Tiro o mosquiteiro
Mato uma moriçoca
Praguejo a invasão
Levanto todo assustado
Olho me sento retado
Faço uma nova oração
Despejo a minha ira
A maluquice inspira
Detono verso de brisa
Arranco a minha camisa
Lambo os beiços da rua
Vendo Iracema tão nua
Em pelo busco a chama
Que mente e diz que me ama
Mas para tudo reclama
Ô vida besta da porra.

Victor Fidel / Carlos Silva

Motivo!


Primeiramente, o intúito de criar esse blog é de organizar e ao mesmo tempo dar conhecimento do que se passa em minha cabeça, aos curiosos e amigos.
Pois bem, publicarei coisas que escrevo, discos que ouço e artistas da minha atmosfera.
Esse blog estará sempre a disposição de todos que queiram de alguma forma contribuir no que diz respeito a coisas culturais.