sábado, 28 de novembro de 2009

Maviael Melo - Campanha Eleitoral

Clarice Lispector



Quando fazemos tudo para que nos amem e não conseguimos, resta-nos um último recurso: não fazer mais nada. Por isso, digo, quando não obtivermos o amor, o afeto ou a ternura que havíamos solicitado, melhor será desistirmos e procurar mais adiante os sentimentos que nos negaram. Não fazer esforços inúteis, pois o amor nasce, ou não, espontaneamente, mas nunca por força de imposição. Às vezes, é inútil esforçar-se demais, nada se consegue;outras vezes, nada damos e o amor se rende aos nossos pés. Os sentimentos são sempre uma surpresa. Nunca foram uma caridade mendigada, uma compaixão ou um favor concedido. Quase sempre amamos a quem nos ama mal, e desprezamos quem melhor nos quer. Assim, repito, quando tivermos feito tudo para conseguir um amor, e falhado, resta-nos um só caminho...o de mais nada fazer.

Rasga o coração



Rasga-o, que hás de ver
Lá dentro a dor a soluçar
Sob o peso de uma cruz
De lágrimas chorar
Anjos a cantar preces divinais
Deus a ritmar seus pobres ais

Sorve todo o olor que anda a recender
Pelas espinhosas florações do meu sofrer
Vê se podes ler nas suas pulsações
As brancas ilusões e o que ele diz no seu gemer
E que não pode a tia dizer nas palpitações
Ouve-o brandamente, docemente a palpitar
Casto e purpural num treno vesperal
Mais puro que uma cândida vestal

Hás de ouvir um hino
Só de flores a cantar
Sobre um mar de pétalas
De dores ondular
Doido a te chamar, anjo tutelar
Na ânsia de te ver ou de morrer

Anjo do perdão! Flor vem me abrir
Este coração na primavera desta dor
Ao reflorir mago sorrir nos rubros lábios teus
Verás minha paixão sorrindo a Deus

Palma lá do Empíreo
Que alentou Jesus na cruz
Lírio do martírio
Coração, hóstia de luz
Ai crepuscular, túmulo estelar .

Vicente Celestino

Acalanto para um punhal



Dorme bandoleiro
Dorme punhal, coração
Ponta de sal na raiz dos gemidos
Arma branca das trevas
Invejará o ardor
Do teu aço na flor
Que esconde a beleza em profundas crateras.
Sangue na prata da lua
Fere a paixão no capim
Mancha o leito carmim
Clarão, violão
Mesmo sol de granada.
Acordarás com meu grito
Rasga o silêncio do amor
Mancha o leito de dor
Punhal, coração
Amanhece a campina.

Fagner

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Tema da vitória - Robson Miguel

Abat-Jour



A lâmpada acesa
(Outrem a acendeu)
Baixa uma beleza
Sobre o chão que é meu.
No quarto deserto
Salvo o meu sonhar,
Faz no chão incerto
Um círculo a ondear.

E entre a sombra e a luz
Que oscila no chão
Meu sonho conduz
Minha inatenção.

Bem sei ... Era dia
E longe de aqui...
Quanto me sorria
O que nunca vi!

E no quarto silente
Com a luz a ondear
Deixei vagamente
Até de sonhar...

Fernando Pessoa

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Os Estatutos do Homem (Ato Institucional Permanente)



Artigo I
Fica decretado que agora vale a verdade.
agora vale a vida,
e de mãos dadas,
marcharemos todos pela vida verdadeira.

Artigo II
Fica decretado que todos os dias da semana,
inclusive as terças-feiras mais cinzentas,
têm direito a converter-se em manhãs de domingo.

Artigo III
Fica decretado que, a partir deste instante,
haverá girassóis em todas as janelas,
que os girassóis terão direito
a abrir-se dentro da sombra;
e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro,
abertas para o verde onde cresce a esperança.

Artigo IV
Fica decretado que o homem
não precisará nunca mais
duvidar do homem.
Que o homem confiará no homem
como a palmeira confia no vento,
como o vento confia no ar,
como o ar confia no campo azul do céu.

Parágrafo único:
O homem, confiará no homem
como um menino confia em outro menino.

Artigo V
Fica decretado que os homens
estão livres do jugo da mentira.
Nunca mais será preciso usar
a couraça do silêncio
nem a armadura de palavras.
O homem se sentará à mesa
com seu olhar limpo
porque a verdade passará a ser servida
antes da sobremesa.

Artigo VI
Fica estabelecida, durante dez séculos,
a prática sonhada pelo profeta Isaías,
e o lobo e o cordeiro pastarão juntos
e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora.

Artigo VII
Por decreto irrevogável fica estabelecido
o reinado permanente da justiça e da claridade,
e a alegria será uma bandeira generosa
para sempre desfraldada na alma do povo.

Artigo VIII
Fica decretado que a maior dor
sempre foi e será sempre
não poder dar-se amor a quem se ama
e saber que é a água
que dá à planta o milagre da flor.

Artigo IX
Fica permitido que o pão de cada dia
tenha no homem o sinal de seu suor.
Mas que sobretudo tenha
sempre o quente sabor da ternura.

Artigo X
Fica permitido a qualquer pessoa,
qualquer hora da vida,
uso do traje branco.

Artigo XI
Fica decretado, por definição,
que o homem é um animal que ama
e que por isso é belo,
muito mais belo que a estrela da manhã.

Artigo XII
Decreta-se que nada será obrigado
nem proibido,
tudo será permitido,
inclusive brincar com os rinocerontes
e caminhar pelas tardes
com uma imensa begônia na lapela.

Parágrafo único:
Só uma coisa fica proibida:
amar sem amor.

Artigo XIII
Fica decretado que o dinheiro
não poderá nunca mais comprar
o sol das manhãs vindouras.
Expulso do grande baú do medo,
o dinheiro se transformará em uma espada fraternal
para defender o direito de cantar
e a festa do dia que chegou.

Artigo Final.
Fica proibido o uso da palavra liberdade,
a qual será suprimida dos dicionários
e do pântano enganoso das bocas.
A partir deste instante
a liberdade será algo vivo e transparente
como um fogo ou um rio,
e a sua morada será sempre
o coração do homem.

Thiago Mello
Santiago do Chile, abril de 1964

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Organum / O Órgão

A Creatore exemplum capiens
e levi ligno arcam musicam
peritus ille fecit opifex.
Una cum cedro incorruptibili
inclusa mens remansit avium;
et cum obscura e silvis tabula
remissa lumina lampyridum;
et cum radice pini altissimae
odores malvae et musci teneri.

Illicne silva an carcer volucrum?
Qui favus ille resonans antiquo fremitu
quae crista florum turgida
et quae nunc fluitans aqua intra ventorum lineas!

Firmis sub digitis artificis
personant cantus plenitudine.
(Dum silva fremit in reconditis
tum et aperta fiunt lucida.)
Et inauditum meios fulgidum
ab alvo ligni sicca defluens
leves in rores it diluculi.

José Lourenço de Oliveira

Tradução:

A exemplo do Criador,
plasmou o Artista, em madeira,
sua caixa de música.
E com o cedro incorruptível,
veio a lembrança dos pássaros.
E com o negro jacarandá,
um revérbero de vagalumes.
E com as raízes do alto pinheiro,
o odor da malva e do musgo.

Arvoredo ou jaula?
E esse favo de mel com zumbidos antigos,
e esse tufo de orquídeas em rapto,
e a água que escorre nos desenhos do vento?

As mãos poderosas do Artista,
soa em plenitude o canto.
(Nos seus recônditos freme
a selva. E são vivas clareiras.)
0 canto que jamais se ouvira.
Do bojo seco da matéria
para as madrugadas do éter.

Henriqueta Lisboa

Fragmento Nº1




Me quer ? Não me quer ? As mãos torcidas
os dedos
despedaçados um a um extraio
assim tira a sorte enquanto
no ar de maio
caem as pétalas das margaridas
Que a tesoura e a navalha revelem as cãs e
que a prata dos anos tinja seu perdão
penso
e espero que eu jamais alcance
a impudente idade do bom senso.

Vladimir Maiakóvski

Freddie Mercury



Freddie Mercury nasceu na cidade de Stone Town, na ilha Zanzibar, à época colônia britânica, hoje pertencente à Tanzânia, na África Oriental. Seus pais, Bomi Bulsara e Jer Bulsara, eram indianos da religião zoroastriana. Mercury foi educado na St. Peter Boarding School, uma escola inglesa perto de Mumbai, na Índia, onde deu seus primeiros passos no âmbito da canção, ao ter aulas de piano. Foi na escola que ele começou a ser chamado "Freddie" e, com o tempo, até os seus pais passaram a chamá-lo assim.

Depois de se formar em sua terra natal, Mercury e família mudaram-se em 1964 para a Inglaterra, devido a uma revolução iniciada em Zanzibar. Ele tinha dezoito anos. Lá diplomou-se em Design Gráfico e Artístico na Ealing Art College, seguindo os passos de Pete Townshend. Esse conhecimento mostrar-se-ia útil depois, ao Freddie projetar o famoso símbolo da banda.

Algo que poucos fãs sabem é que, na escola de artes em que se bacharelou, Freddie era conhecido como um aluno exemplar e muito quieto. Tinha uma personalidade bastante introspectiva. Concluiu os exames finais do curso com conceito A. Possui uma série de trabalhos em arte visual, hoje disponíveis em alguns sítios na internet.

Na faculdade, ele conheceu o baixista Tim Staffell. Tim tinha uma banda na faculdade chamada Smile, que tinha Brian May como guitarrista e Roger Taylor como baterista, e levou Freddie para participar dos ensaios.

Em abril de 1970, Tim deixa o grupo e Freddie acaba ficando como vocalista da banda que passa a se chamar Queen. Freddie decide mudar o seu nome para Mercury. Ainda em 1970, ele conheceu Mary Austin, com quem viveu por cinco anos. Foi com ela que assumiu sua orientação sexual (Freddie era bissexual) e os dois mantiveram forte amizade até o fim de sua vida. Mary inspirou Freddie na música Love of My Life, de acordo com declaração do cantor e de seus companheiros de Banda, sendo Mary acima de tudo o verdeiro amor dele.

No visual de Freddie, há uma mudança que não deixa de ser notada: se, na era Glam dos anos 70, o cabelo comprido, eyliner preto, unhas pintadas , os maillotes de bailado e sapato de tacão alto eram moda, estes iriam dar lugar a uma postura mais "macho": cabedal preto, chapéu de polícia, cabelo curto e meses mais tarde bigode, essa seria a sua imagem de marca na promíscua década de 1980.

Mercury compôs muitos dos sucessos da banda, como Bohemian Rhapsody, Somebody to Love, Love of My Life e We Are the Champions; hinos eloquentes e de estruturação extraordinária, particulares e sempiternos. Suas exibições ao vivo eram lendárias, tornando-se imagem de marca da banda. A facilidade com que Freddie dominava as multidões e os seus improvisos vocais envolvendo o publico no show tornaram as suas turnês um enorme sucesso na década de 1970 e principalmente (enchendo estádios de todo o mundo) nos anos 80.


Estátua de Freddie Mercury em MontreuxLançou dois discos-solo, aclamados pela crítica e pelo público. Em 1991, surgiam rumores de que Mercury estava com AIDS, que se confirmaram em uma declaração feita por ele mesmo em 23 de novembro, um dia antes de morrer, vindo a falecer na noite de 24 de novembro de 1991, em sua própria casa, chamada de Garden Lodge. Sua morte causou repercussão e tristeza em todo o mundo. A casa de Freddie Mercury, passada por testamento à sua ex-namorada, Mary Austin, recebeu muitos buquês de flores na época e continua a receber até hoje.

O corpo de Freddie Mercury foi cremado e por isso infelizmente não existe túmulo para que seus fãs viessem para homenageá-lo.

Em 25 de novembro de 1992, foi inaugurada uma estátua em sua homenagem, com a presença de Brian May, Roger Taylor, da cantora Montserrat Caballé, Jer e Bomi Bulsara (pais de Freddie) e Kashmira Bulsara (irmã de Freddie), em Montreux, na Suíça, cidade adotada por Freddie como seu segundo lar.

Os membros remanescentes do Queen fundaram uma associação de caridade em seu nome, a The Mercury Phoenix Trust, e organizaram, em 20 de abril de 1992, no Wembley Stadium, o concerto beneficente The Freddie Mercury Tribute Concert, para homenagear o trabalho e a vida de Freddie.

O cantor também foi conhecido pelo pseudônimo de Larry Lurex e pelo apelido Mr. Bad Guy.

Freddie Mercury era proprietário da voz, quem sabe, mais lírica - ou, se preferir, forte - de todos os tempos, chegando provavelmente a superar Elvis Presley e John Lennon. Contam alguns que, durante as gravações do álbum Barcelona, Freddie desafiou Montserrat Caballé, a cantora lírica mais conhecida no mundo, para ver quem possuía maior fôlego. Mercury venceu com uma grande vantagem.

Em 1992, dão-se os Jogos Olímpicos de Barcelona, um ano depois da morte de Freddie Mercury, nos quais Montserrat Caballé intrepreta a famosa canção Barcelona (gravada em 1988) num dueto virtual com o cantor falecido. Ainda hoje o dueto é recordado como um marco histórico da música.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Controle nenhum



Não adiatam rédeas, amarras, grilhões...
Ela tem vida própria.
Já tentei prender minha insaciável cobiça
Já tentei controlar minha palavra
O universo do meu vocábulo
Interdizer tudo que ela diz
As vezes tenho vontade de não tê-la:
Vontade.

Fidel

Ela só está com vontade



Quando ela diz que tem vontade de mim
Eu me pergunto se mereço,
Me pergunto se ela está pagando algum preço
Por me querer sem hesitar

Se ela está inebriada, "ilusionada"...
Entediada sem outra opção,
Se ela só está com tesão
Ou se de repente só quer brincar

-"A noite seca, enche a gente de vontades
O dia por si só é uma anestesia
Com seus trâmites irreversíveis".

Quando ela me pergunta
O que eu estou pensando...
Lhes digo:
Estou pensando em pensar em você!

Ela só tá com vontade de mim.

Fidel

Maviael Melo e Xangai

Mãe natureza



Ceifa a minha alma
A aurora perdura
Cheia de reflexos
Repletos raios de sol
A iluminar o meu ser
Doloroso e carente
Sábia mãe natureza
Que um dia brotou
A lágrima do amor
Da dor
Da perda
Sábia mãe natureza
Que fez nascer
Um sentimento
Um coração
Uma razão
Uma oração
Uma emoção
Uma canção
Salve a vida!
Salve o amor!

Josélia Ferreira

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

1º Drummond, depois Barão Vermelho

Cabra cega



Pra você que mal enxerga
Um incêndio na floresta no meio da escuridão
Pra você que mal enxerga
Uma estrela, um vaga-lume numa noite de verão
Pra você que mal enxerga
Uma nave extraterrena vai ser sempre um avião
Um satélite perdido, um delírio coletivo
Um balão de São João

Por isso chega mais pra perto, cabra cega
E pega na minha mão
Tira a venda, enxerga
Abre a janela e os olhos do coração

Sérgio Sampaio

domingo, 22 de novembro de 2009

Sintonia



Escute essa canção
Que é prá tocar no rádio
No rádio do seu coração
Você me sintoniza
E a gente então se liga
Nessa estação...

Aumenta o seu volume
Que o ciúme
Não tem remédio
Não tem remédio
Não tem remédio não...

E agora assim aqui prá nós
Pelo meu nome não me chama
Você é quem conhece mais
A voz do homem
Que te ama...

Deixa eu penetrar
Na tua onda
Deixa eu me deitar
Na tua praia
Que é nesse vai e vem
Nesse vai e vem
Que a gente se dá bem
Que a gente se atrapalha...

Aumenta o seu volume
Que o ciúme
Não tem remédio
Não tem remédio
Não tem remédio não...

E agora assim aqui prá nós
Pelo meu nome não me chama
Você é quem conhece mais
A voz do homem
Que te ama...

Deixa eu penetrar
Na tua onda
Deixa eu me deitar
Na tua praia
Que é nesse vai e vem
Nesse vai e vem
Que a gente se dá bem
Que a gente se atrapalha...

Escute essa canção
Que é prá tocar no rádio
No rádio do seu coração
Você me sintoniza
E a gente então se liga
Nessa estação...

Moraes Moreira

sábado, 21 de novembro de 2009

Quem sabe amanhã

Se meu corpo pudesse agora,
Teletransportaria minh'alma pra junto de ti.
Gostosa!

Fidel

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Toda noite a saudade me visita



O meu céu se tornou um véu de brasas
Quando vim conhecer a solidão
Meu destino passou pra contra mão
Me perdi dentro em minha própria casa
A angustia podou as minhas asas
Vi um mundo de sonhos triturados
Construí um castelo improvisado
Mas me vi inquilino em palafita
Toda noite a saudade me visita
Pra mostrar mais um filme do passado

(Walmar)

A saudade domina meu querer
Faz-me vivo e presente no passado
Vivo o sonho que nunca foi sonhado
Com Walmar aprendendo a aprender
Apostando na ânsia de vencer
Por “Kalu” foi pra mim apresentado
Um momento por nós já superado
Numa linha por Deus há tempo escrita
Toda noite a saudade me visita
E me mostra esse filme do passado

(Galdêncio Neto)

Quatro horas e um minuto



Quatro horas
Quatro ônibus levando vinte e quatro pessoas
Tristonhas e solitárias

Quatro horas e um minuto
Acendi um cigarro e a cidade pegou fogo.

Cinco horas
Cinco soldados espancando cinco pivetes
Filhos sem pai
E órfãos de pão

Cinco horas e um minuto
Urinei na ponte e inundei a cidade
Sei horas
O Recife reza
E eu voando pra ver Maria.

Miró